O que aprendemos de nossa própria língua ao pensar em línguas de outros povos?

Por Miruna Kayano Genoino

O dia a dia dentro de uma escola é muito intenso. Crianças, professoras, famílias, colegas, reuniões, orientações, aulas, debates, mais aulas, conversas, orientações, e nosso mundo cheio de detalhes e de idas e vindas com a intensidade que só quem vive dentro de uma escola pode chegar a entender. Esse pequeno mundo que se torna todo nosso mundo durante muitas horas na semana pode ser bastante difícil de se afastar durante alguns dias e por isso é preciso muita organização, parceria e discussão para participar em um congresso como o CONLES – Congresso Latino-americano de Leitura e Escrita, que ocorreu de 25 a 27 de setembro em Lima, Peru, e do qual participei em nome da Escola da Vila.

Lembro que no dia anterior à minha ida, ainda cheia de decisões (inclusive familiares) a serem tomadas, recados e trocas com professoras e colegas, planejando minha ausência, cheguei a pensar: “Nossa, será que eu deveria mesmo ter me inscrito?”. Porque o dia a dia é intenso, e ao mesmo tempo é difícil de abandonar. A gente quer estar perto, junto, vivendo e acontecendo dentro desta vida que é a escola. Mas que bom que dentro da Vila existe uma equipe tão firme neste propósito de fazer os profissionais irem além, sabendo que para isso são sim necessários uns dias de afastamento.

O CONLES de 2017, do qual também participei, na Costa Rica, já tinha sido uma experiência muito forte e intensa, responsável por me mergulhar no universo dos contos de fadas que agora ocupa muitos de meus estudos. Mas certamente o CONLES 2019 me marcou de uma forma diferente, para além mesmo da leitura e escrita destas práticas de linguagem que me apaixonam… vou lembrar sempre deste congresso no Peru como o evento de resgate do valor dos povos originários para o que somos hoje, para a língua que falamos hoje e para o que queremos ser.

Já pude contar um pouco no podcast “Critique em um instante” sobre como vivi esta experiência, mas nunca é demais reforçar: que enorme valor que em um congresso sobre leitura e escrita tenhamos, dentre as conferências centrais, duas focadas na questão linguística dos povos originários e o lugar de suas línguas, na sociedade e na escola. Nestes espaços foi possível conhecer a delicada e intensa reflexão sobre o desafio de buscar espaços de análise e aprendizagem do escrito de línguas, como o quéchua, um dos idiomas oficiais do Peru, que basicamente possuem uma materialização por meio de seus povos de origem, baseada na oralidade.

Em uma das conferências, da professora Elena Burga Cabrera, do Peru, ela apontou quatro aspectos fundamentais que representam este desafio:

  1. Considerar diversos cenários sócio e psicolinguísticos das crianças que estão na escola.
  2. Considerar a normalização de cada língua e todos os elementos advindos desta questão.
  3. Elaborar materiais educativos em línguas originárias, além da língua predominante.
  4. Repensar os processos de ensino e aprendizagem da leitura e escrita desde a cultura em um enfoque intercultural.

Assim, a discussão é muito profunda e extensa. Enquanto ainda por vezes se discute a importância ou não de ensinar nome de letras, pudemos ali refletir sobre como a construção em si de um alfabeto, de uma materialidade escrita já constitui uma estabilidade linguística que não necessariamente representa em sua totalidade a língua em sua existência oral. Quanta verdade quando pensamos na peculiaridade de cada prática, de leitura, de escrita, de oralidade e quanta verdade em lembrar que aprender a ler e escrever é mais que aprender uma língua, mas sim as suas práticas!

Em tempos nos quais os povos originários do Brasil estão perdendo muitos de seus direitos e quando tem-se colocado a luta por seu espaço, sua cultura, sua existência como reflexo de posicionamentos partidários, e não como uma luta muito mais ampla que a escolha de posições políticas, participar de um congresso que discutiu de forma tão profunda e consistente o valor do resgate da história de cada língua, de cada povo, e de sua permanência nos dias de hoje, será uma lição que certamente levarei eternamente em meu percurso como educadora.

Esperando ansiosa pelo CONLES 2021! 

3 ideias sobre “O que aprendemos de nossa própria língua ao pensar em línguas de outros povos?

  1. Olá, Miruna.
    Reflexão muito pertinente. Vivemos num país com mais de 270 línguas! Muitos desses povos já tentam preservar sua língua com materiais próprios de práticas de linguagem. E ao preservar essa língua preserva-se também a cultura e as tradições. Seu texto me fez pensar e divagar um pouco. Beijos.

    • Rosana, que bom que meu texto tem ajudado a abrir estas portas para retomarmos nossas línguas de origem, foi meu maior sentimento nesta ida ao Peru, quanto a aprender das construções linguísticas! Um beijo.

  2. Estas questões são muito complicadas de tratar. Hoje vejo um governo, não especificamente este que nos governa agora, mas todos seus antecessores tratando com um descaso absurdo e esquecendo de suas origens. Nossas línguas nativas ou não, devem ser tratadas com carinho para que não desapareçam.

    Vejo amigos desvalorizarem a nossa língua e estimarem demais línguas estrangeiras. Há ainda aqueles que defendem o uso de uma única língua para a comunicação mundial, eu acho isso absurdo ou talvez eu seja mais um ignorante ^^.

    Fico feliz de encontrar blogs que ainda tratam deste assunto. Obrigado pelo excelente texto.

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