Nutrição cultural e nosso novo Quintal da Vila

Por Fernanda Flores, direção geral

Quais experiências estão ocupando o tempo das crianças bem pequenas? Como os adultos com os quais convivem cotidianamente interagem com elas? Quanto tempo de interação em conversas, cantorias, lengalengas, jogos de achar e perder estão mediando o olho no olho, o corpo a corpo tão essencial ao conhecimento de si nessa etapa da vida?

Sabemos que a construção de vínculos por meio da linguagem é o que de mais essencial há para a construção da subjetividade da criança durante a primeiríssima infância. A conversa terna que se instaura com adultos, sejam mães, pais, avós, educadores, sabe-se fundar o que chamamos de leitura de mundo, ao introduzir a criança nos signos de sua cultura e instaurar a compreensão progressiva dos múltiplos sentidos que a constituem.

A ideia de um ambiente afetivo, que acolhe com ternura e expressividade, por meio de interações que se realizam e se sustentam num tempo, dá aos pequenos e pequenas múltiplas possibilidades de interagir com a linguagem em suas diversas formas, trazendo os símbolos de sua cultura para que deles se apropriem em gestos, sons, palavras, que ganham uma dimensão simbólica somente na relação com um outro.

Sophie Marinopoulos, psicanalista francesa, cunhou a expressão “desnutrição cultural” para explicar o baixo desenvolvimento de linguagem e relacional identificado por muitos profissionais na área da saúde e da educação em crianças de 0 a 3 anos. Resultado, segundo ela, de um universo acelerado que vem invadindo a primeira infância como uma “ameaça à vitalidade de nossa capacidade de se relacionar e de estabelecer pontes com os outros, um processo essencial no desenvolvimento dos bebês e crianças”.

Tudo o que é linguagem, o que é simbólico e afetivo precisa enredar as crianças desde seus momentos iniciais e requer dos adultos uma atenção extra em momento no qual os tempos estão invadidos por telas, mensagens e redes que lhes roubam a energia necessária para estar com os seus menores. Precisamos de adultos presentes, como pontes que abrem caminhos para novas e potentes relações.

Nesse sentido, nutrir culturalmente cria laços com os outros, sejam eles pequenos ou adultos. Esses vínculos instauram linguagem, permitindo experiências exploratórias cada vez mais sensíveis e essas interações são constitutivas do pensamento infantil. Isso demanda não só tempo, mas sobretudo conhecimento sobre a infância e suas necessidades simbólicas.

Ao conceber nosso novo Quintal da Vila, para crianças de 1 a 3 anos, temos como propósito fundamental proporcionar essa nutrição cultural em suas múltiplas dimensões. Assim, elementos como o tempo, o espaço e a disponibilidade em interagir nas diversas linguagens ocupam lugar central em nossa proposta educacional para essa etapa da vida.

A curiosidade por compreender cada criança em suas maneiras de ser, estar e se comunicar, além do respeito aos tempos individuais e a construção do bem-estar junto a outras crianças, é essencial. Quer por meio de brincadeiras, leituras, explorações artísticas, quer ao jogar, trazer histórias, cenários, canções, o que se coloca em evidência é a confiança que temos nas crianças desde muito cedo, em sua potência e na força que representa a mediação cultural que defendemos em nosso projeto.

Conheça nosso Quintal. A Vila cresce para atender a primeiríssima infância!

2 ideias sobre “Nutrição cultural e nosso novo Quintal da Vila

  1. Um sonho é fazer parte desse quintal tão respeitoso a infância. Sou professora de educação infantill e aprecio muito o trabalho de vocês! ❤

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