As mães que nos desculpem, mas não comemoramos o seu dia aqui na escola.

Por Dayse Gonçalves

Estamos a pouco menos de um mês das comemorações pelo dia das mães. Muitas escolas levam as datas comemorativas muito a sério – as chamadas efemérides – e chegam a alterar a rotina escolar, gastando parte de seu precioso e escasso tempo com a realização de tarefas que pouco valor formativo têm para as crianças. Hoje, por exemplo, data em que escrevo este post, tem gente comemorando o “Dia do Índio”. Em algumas escolas as crianças produzem desenhos de índios, voltam para casa com uma pintura no rosto ou um usando um cocar. Quando muito, alguma informação relevante sobre a cultura indígena.

Fico numa tristeza danada quando penso no lugar que algumas temáticas ocupam no currículo escolar quando o critério de seleção de conteúdo é o calendário, por exemplo! Mas isto é outro problema.

Voltando às mães, preciso dizer: o fato de não lhes rendermos homenagens na forma de pequenos presentes não significa que não reconheçamos sua importância. Pelo contrário. Por reconhecermos sua grande importância – na sociedade e na família -, cremos ser desnecessário agradá-las organizando comemorações que vão exigir sua presença num horário em que a maioria de vocês está envolvida com suas atividades profissionais, das quais, com certeza, a maioria inclusive se orgulha. Sem falar que nossa função é de fato outra.

Lembrei-me de um episódio, ocorrido há alguns anos, quando uma mãe queridíssima me telefonou para dizer o quanto estava triste por não ter sido lembrada pela escola, enquanto as mães dos colegas de condomínio de seu filho exibiam envaidecidas os presentes construídos nas aulas de Arte. Ficamos um bom tempo conversando sobre o assunto. Chegamos então às transformações sociais e, por extensão, às transformações pelas quais vem passando a família pós moderna. Chegamos às famílias monoparentais, às homoparentais, as famílias nas quais as crianças não convivem com suas mães ou já as perderam.

É curioso, não é mesmo? A sociedade muda e a escola não muda! Já não é hora de nos libertarmos de velhos padrões e também de muitos preconceitos? A propósito, não temos que ensinar isso a nossos alunos?

Para finalizar, proponho a leitura de uma divertida crônica de Adriana Falcão que encontrei na internet. Depois de lê-la verão que estão justificadas todas as declarações e demais manifestações de amor que recebemos todos os dias de nossos filhos, através dos desenhos e bilhetinhos carinhosos que nos deixam, dos muitos beijos e abraços, que valem muito mais que qualquer bem de consumo que as lojas insistem em vender no mês de maio.

 

 Um dia de mãe

Chegou exausta, cheia de sacolas, dor de cabeça, morta de calor, faminta, caótica, e com um firme propósito: tomar um banho e cair na cama. Encontrou uma acalorada discussão a respeito da impossibilidade de dividir um computador em três (sem despedaçá-lo) e as três crianças aos berros. Todas as luzes da casa estavam acesas. A pressão subiu um pouco.

– Vocês querem fazer o favor de apagar as luzes enquanto eu tomo o meu banho?

Inútil. Todos os membros da família foram acometidos da síndrome de pensar em outra coisa, mal muito comum entre maridos e filhos durante reclamações, queixas, opiniões etc.

Saiu pela casa desligando tudo que estava aceso para o nada: lâmpadas, som, TV, internet…

– Por isso que eu liguei pra cá e só deu ocupado o dia inteiro!

– O quê?

Nada. Já tinha desistido de competir com o walkman fazia muito tempo.

No quarto da filha mais velha, dezenove blusas, cinco saias e quatro vestidos estavam espalhados em cima da cama para devida apreciação da mesma.

– Vai sair?

– Desisti. Não tenho roupa.

A pressão subiu vertiginosamente. Bobagem. Nada que um banho não resolvesse.

– Esse jantar não sai hoje não?

Esquece o banho.

– Sopa de novo?

Calma.

– Ergh!

Respira.

– Por que eu não tenho copo?

Palpitação moderada. Coisa controlável. Foi buscar o copo.

– Aproveita que tá na cozinha e frita um ovo pra mim?

Claro. Fritar ovo inclusive é uma ótima terapia ocupacional pra quem já passou por dois engarrafamentos, banco, pediatra, ginástica, supermercado, uma papelaria entupida de mães comprando material escolar e cinco reuniões de trabalho. Normal.

– Você não sabe que eu só gosto de gema mole?

Teve uma leve síncope nervosa, mas conseguiu se controlar. Afinal, a culpa era dela. Como podia ter cometido um erro tão grave? É óbvio que a mais velha e a do meio gostavam de gema mole (muito sal para a primeira, pouco para a segunda), a menor preferia ovo mexido (sal no ponto), o marido não suportava gema… Ou não suportava clara? Quem gostava de omelete? Qual das crianças teve sarampo? Quem foi que quebrou a perna?

Bateram na porta. Era o porteiro, pra avisar que ia faltar água. Ameaça de infarto. Passou, graças a Deus. Voltou quando alguém espatifou a jarra de suco no chão. (Dessa vez foi de miocárdio.) A menorzinha disse que foi a mais velha. A mais velha disse que foi a do meio. A do meio disse: tudo eu! E se trancou no quarto, de onde só saía em último caso, um incêndio ou um telefonema, por exemplo. O telefone tocou.

– Alguém pode atender enquanto eu limpo o chão ou limpar o chão enquanto eu atendo?

Todos os membros da família foram acometidos de um acesso de paralisia generalizada (espécie de praga que costuma ser causada pela presença da mãe no recinto) acompanhado de mudez instantânea. Acontece. Ela atendeu ao telefone, era engano, limpou o chão, voltou para a mesa, a sopa tinha esfriado. Melhor. Comer engorda.

– O ar-condicionado do meu quarto quebrou.

– Você se lembrou de comprar o meu livro de inglês?

– Não tem geléia não, é?

– O cachorro fez xixi na minha colcha.

– Por que eu não tenho garfo?

O telefone tocou de novo. Nova palpitação seguida de falta de ar súbita. Era para a menor.

– A Júlia pode dormir aqui hoje?

Pode.

– A mamãe deixou. Desce daqui a dez minutos que a gente passa aí pra te pegar.

Ligeiro formigamento no braço esquerdo. Angina? Isquemia? Talvez. Saiu de casa com o firme propósito de pegar a Júlia, voltar correndo, ir direto tomar um banho e cair na cama.

– Aproveita que vai sair e passa na locadora pra devolver os filmes.

– Aproveita que vai passar na locadora e compra o meu remédio na farmácia.

Casa da Júlia. Locadora. Farmácia. Ia ter de deixar o infarto e o banho pra mais tarde.

52 ideias sobre “As mães que nos desculpem, mas não comemoramos o seu dia aqui na escola.

  1. Dayse, simplesmente excelente sua reflexão. Há muito tempo pensamos assim e muitas vezes não conseguimos explicar muito bem o porquê dessa opção, você o fez em poucas palavras!

    A crônica final foi uma grande homenagem, identificação imediata, não é mesmo? Obrigada, foi uma delícia começar o dia com essa leitura. Abraços.

    • Oi Sonia, de fato faz tempo que a gente combinou de escrever algo sobre as tais efemérides, não é mesmo? Aproveitei o dia das mães por que respeito muito este tipo de “heroína”, e também porque me ajudava a chegar onde eu queria: na questão ideológica por trás do tal calendário comemorativo escolar. Como costumo dizer às famílias que nos procuram para conhecer a escola, todo projeto pedagógico defende um projeto de sociedade. Que bom que gostou do texto da Adriana Falcão. Eu adoro esta escritora! Me identifico demais com as crônicas dela, todas voltadas para o feminino de um jeito tão humano, tão sensível e, ao mesmo tempo, tão bem humorado.

    • Ufa!!! ~que alívio!
      tanta coisa importante para tratar com as crianças, que fazer um “livro de receitas” nesses tempos de blog de receitas na internet, só para agradar algumas mães, me parece um desperdício.
      Sem contar que a gente não precisa de mais uma obrigação social, não é mesmo?
      beijos

    • Boa Noite, Dayse Gonçalves!!!
      Não concordo com sua opinião a respeito de trabalhar datas comemorativas em atividades escolares, uma vez que as escolas podem SIM contextualizar as atividades dentro dos conteúdos a serem cumpridos pelo calendário escolar, mas…isso dá muito trabalho e alguns professores optam por não fazê-lo. No que diz respeito ao Dia das Mães, na minha humilde opinião, as mesmas devem participar da vida escolar de seus filhos e mesmo com a vida corrida e cheia de compromissos que temos, as crianças merecem SIM um tempo para serem valorizadas, no caso das escolas que comemoram a data seja da forma mais simples até as mais cheias de glamour. Mas, é claro que isso fica a critério da filosofia de cada escola, pois cada uma sabe a que público atende e o que mais agrada os pais e alunos. Grata pela atenção! Ana Paula

      • Prezada Ana Paula,

        Cada escola toma decisões relacionadas a como maneja o tempo em função dos conteúdos que tem de trabalhar. Sem dúvida se trata da autonomia pedagógica de cada instituição. Aqui na Vila, em função de nossos valores e compreensão da razão de ser da escola, entendemos que os dias de “mães”, “pais”, “avós”, são datas comerciais que incitam um consumo desnecessário e que nossa escola não assumirá com tema em seu cotidiano. Entendemos que compete à família cuidar de “se” e “como” renderá suas homenagens à essas pessoas.
        No mais, em relação às outras efemérides, nossa crítica permanece: para que usar essas datas como fio condutor de um currículo?

        Obrigada pela sua leitura.

        • Concordo e compreendo plenamente a colocação do post pois como ficariam aquelas crianças que, por exemplo, já não tem ou não convivem com suas mães? Os colegas recebendo suas mães em um ambiente enquanto as outras, sem a presença de suas mães, sentiriam a dor da ausência? Acho que essa deve ser a preocupação de uma instituição, promover o bem estar de todos e entre todos.

  2. Oi Dayse,
    mesmo não tendo nenhuma expectativa em relação ao dia das mães, da minha parte vocês estão totalmente desculpadas.
    Faz todo o sentido do mundo seu texto.
    Fiquei lembrando meus tempos de escola pública que pintávamos coelhinhos na Páscoa que eram mimeografados pela “tia” e todo mundo voltava pra casa com aquilo debaixo do braço. O mesmo no dia do índio, dia das mães, dos pais, dia da árvore, enfim aquelas atividades que tinham tudo a ver com um tempo em que o máximo da tecnologia era um mimeógrafo!

    Fico feliz em constatar a preocupação da Escola em aproveitar melhor o tempo disponível, proporcionando atividades muito mais enriquecedoras do ponto de vista educativo para minha filhota!
    Beijo
    Luciana

    • Obrigada, Luciana, por comentar o nosso post de hoje. Discutimos muito, constantemente, como melhor aproveitar melhor o tempo de que dispomos para formar nossos alunos, qualquer que seja a idade. E não só isso, com o que nos ocupamos! Um grande abraço,
      DAYSE

  3. Realmente muito boa reflexão.Estamos vivendo um momento em sociedade, onde é muito mais urgente aprender sobre respeito e solidariedade nas relações humanas, do que alimentar o consumismo
    ja tão grande, em relação a datas comemorativas como o dia das mães.
    De verdade a escola tem que mudar. O curriculo melhor é aquele que tem competência de ajudar a formar grandes almas.
    Fico feliz de observar que as mudanças estão chegando.
    Sueli Prudente.

  4. Dayse, caríssima, acho que esse é um dos motivos porque eu gosto da Escola da Vila! Sinceramente, acho o consumo desenfreado desses dias opressivos, e festa obrigatória de dia das mães na escola uma formalidade. E como sou antropóloga, e pesquiso inclusive família e gênero, ainda tem isso: nem todo mundo mora com uma ou tem uma mamãe por perto para comemorar, os novos arranjos familiares na verdade já são antigos no Brasil, e o que temos que fazer é celebrar a variedade e respeitar a diversidade. Sem a mesmice obrigatória!
    E que nem todas as mães tenham que ser super-heroínas!
    abraço
    Heloisa (mãe da Ana do 4o C e de uma pequena Taís que ano que vem tb vai para Vila!)

  5. Oi Dayse!

    Concordo em gênero número e grau da total desnecessidade dessas datas comemorativas na escola. Escrevi também sobre isso lá no blog, e venho tentando não ser uma mãe radical. Uma chata que não vê magia nos bigodinhos do coelho.
    A verdade é que eu acredito que sim, para um pequenininho brincar com o coelhinho, fazer uma colagem com algodão ou cantar uma música com percussão de instrumentos indígenas podem ser atividades interessantes. Mas atividades, e só.
    Não gosto mesmo dessa distorção do conteúdo da sala de aula em prol das comemorações consumistas que a gente vive e pouco se dá conta.
    É claro que eu ainda tenho muito a aprender…
    Bjos, continuarei vindo e vou divulgar esse texto, ok?

  6. Muito bom Dayse, vai me ajudar muito no meu atendimento de pais e a simplificar as explicações que teço ao atendê-los, pois, ainda hoje, me perguntam sobre essas comemorações. E nós podemos então responder com as nossas inquietações.

  7. Admiro muito essa postura da escola e adorei seu texto, Dayse. Na época do natal ano passado, conversando com a dona de uma escola pequena perto da minha casa, comentei que aqui não temos nada dessas comemorações (eu estava questionando o porque naquela escola queriam entupir as crianças de 2 e 3 anos com balas todos os dias, só porque era “semana do papai noel”). Ela se surpreendeu e falou algo como: Jura! Nem dia das mães? Nossa, que bom que deve ser, porque as comemorações tomam tanto tempo nosso! Mas os pais esperam isso da escola, nunca pensei em dizer pra eles que não teria mais…
    É impressionante a dificuldade de refletir sobre uma prática que já virou hábito e pensar em mudar o que não tem mais sentido.

  8. Dayse, AMO ler seus textos!!!
    Tenho muito orgulho de dizer que você foi uma das pessoas que mais me despertou interesse pela boa escrita!
    Obrigada!

  9. Dayse, parabéns pelo texto maravilhoso. Mais uma vez tive o prazer de me encantar com suas palavras. Concordo muito com você, acho importante a escola ter essa postura frente a datas comemorativas como o dia das mães, criadas para alimentar o consumo. Reconhecimento é bom e a gente gosta, mas existem esses caminhos afetivos que estão presentes no dia a dia e precisamos estar atentas a eles…A crônica da Adriana Falcão também é excelente, adorei, dei muita risada, me identifiquei (claro!) e foi um presente terminar meu dia com sua reflexão, obrigada!
    beijos com carinho

    • É isso aí, Karen, companheira querida nesta casa de educação. Sendo vc uma destas pessoas que encontra caminhos afetivos para educar, em todos os sentidos (em Arte, na sala dos professores, na vida, em casa com os filhos), fico contente com sua participação aqui neste fórum. Bjs

  10. Texto triste, radical demais para ser levado à sério. Tb não acho que as escolas deveriam comemorar o Dia das Mães com eventos, festas, etc., etc…Mas confesso que fico feliz em pensar que meus meninos perderam um tempinho produzindo algo para a mamãe. Hoje meu filho de 3 anos chegou em casa e disse “mãe, é surpresa, mas eu estou fazendo um presente lindo para você e vou te dar com muito carinho porque vc é meu amor”. Eu estava no meio da correria, lavando louça, balançando o carrinho do bebê com o pé, mas parei para dar um beijo e um abraço nele, para agradecer e dizer que ia esperar com ansiedade. Não acho que ele deixou de aprender algo importante por isso…Pelo contrário, por um momento ele parou para pensar na nossa relação, no que representamos um para o outro, e se a escola de uma forma contribuiu para isso, acho válido. Estes dias minha mãe mostrou para minha filha um presente feito na escola que dei a ela quando criança e eu uso atualmente na cozinha um “guarda-sacos” pintado à mão pelo meu filho no Dia das Mães do ano passado, que ele mostra orgulhoso para as visitas que chegam em casa…Isso não tem importância? Para mim tem…Vocês estão esquecendo do principal: a valorização da família, das relações sadias, são o princípio para a formação de qualquer indivíduo. É através disso que se constroem famílias que se respeitam e não protagonizam o espetáculo triste narrado em seu texto de apoio: Uma mãe louca, à ponto de ter um infarto porque os filhos não têm um pingo de respeito por ela…O ideal não seria um filho que dissesse: “Mãe, vai tomar um banho e descansar, eu frito um ovo mexido para mim. O fulano queria vir aqui hoje mas como vc está cansada deixarei para outro dia, etc., etc., etc….

    • Cara Valéria, infelizmente, no mundo em que vivemos, as mães têm sim muitas atribuições. As mais humildes, mais que nós ainda, pode ter certeza, e seus filhos nem podem ser “mimados” como são os nossos. Concordo com vc no que diz respeito à uma divisão mais justa do trabalho doméstico quando há com quem dividir (entre filhos e mães; entre esposas e maridos; entre esposas, maridos e filhos). Numa relação sadia, como diz vc, deveríamos mesmo cuidar mais deste aspecto da educação de nossos filhos. Se mais equilibrada, as relações deles, enquanto adultos (colegas de república, de faculdade, de trabalho, maridos e esposas) também será mais saudável. Vc traz uma reflexão importante. Devemos todos considerar. E não por sentimento de culpa ou pena da mãe cansada, mas porque não é justo que alguém carregue nas costas o peso de tudo que diz respeito a todo mundo. Tem sim que ajudar a descarregar as compras e ajudar a guardar no armário. Tem sim que fazer sua própria cama. Tem sim que ajudar a por e tirar a mesa. E, de quebra, aprender a cozinhar. Na escola por exemplo, cuidamos muito para que as crianças reconheçam que tudo que é coletivo (espaço, materiais) merece atenção de todos. Então todos ajudam na manutenção e a guardar o que foi utilizado, inclusive para evitarmos desperdícios. Também cuidamos para que aprendam a cuidar de seus próprios pertentes, assim como aprendem a cuidar das relações, a enfrentar conflito através do diálogo, enfim, a se respeitar. Para isso, é preciso ter tempo. Lembra aquele tempo que eu mencionei que é escasso?
      Não sei se vc leu outros posts deste blog, mas há poucas semanas falamos um pouco dos pequenos acontecimentos domésticos que significam muito para as crianças. Estes pequenos presentes maravilhosos tb podem ser feitos em casa. Com a mãe, para o dia dos pais. Com o pai, para o dia das mães. O comércio varejista vai arrefecer um pouco, mas com certeza será muito mais significativo para todos os envolvidos. Um abraço.

    • Valéria, que alívio. Estava totalmente chocada com os depoimentos que estava lendo.
      Sou psicóloga, autora do livro Agressividade Infantil – Relax e Reprogramação Emocional para Crianças, no qual enfatizo a importância do carinho, da família, e de repente leio um monte de depoimentos de mulheres que não querem ir à festinha do Dia das Mães, porque têm muitos afazeres, ou porque enquanto os filhos estão fazendo um presente especial estão deixando de aprender geografia (geografia foi tirada do currículo) ou matemática, ou sei lá o quê.
      São essas mães que amamentam (quando se dão a esse trabalho) penduradas na internet, sem olhar para a cara da criança.
      Fico espantada, quase desiludida, pois vemos que essa transformação social tira cada vez mais o papel feminino da mão da mulher. Apesar de todo esforço da mulher para ter igualdade, cada vez mais ela está sendo destituída de seu poder de Mulher, de Mãe, de Provedora.
      Quando não valorizamos a comemoração de eventos que valorizam e respeitam a mulher, estamos abrindo mão de muitas coisas sem perceber.
      Depois, não podemos reclamar de filhos que assassinam pai, mãe, irmãos, pois a lembrancinha é um gesto afetivo, que pode ir da escola para a mãe, como também pode vir de casa, no dia do professor.
      As mulheres que aceitam essa modernização, estão renegando seu papel de Mães, e quando forem chamadas de “aquela que cuida de mim” não vão poder reclamar.
      Que me desculpe essa escola, mas não concordo com esse tipo de atitude. Comemorações são importantes, com ou sem festa. Quem quiser vai, quem não quiser que vá ao cabelereiro, ao massagista, à academia. Mas que seja respeitado o papel da Mulher na sociedade, e da Mãe, figura que ainda representa o afeto, o amor, o carinho, a Vida.

  11. Fiquei chocada com a coragem de vocês!è por essas e outras que sou fã desta escola há muito tempo. Quando temos muito claro nossos reais objetivos na educação, sabemos exatamente o que justificar aos pais, que são na maioria leigos e esperam da escola aquilo que tiveram de referência em sua infância. Infância esta de outros tempos… quando eram crianças de outra época…
    No município em que leciono estas “efemérides” ainda são muito fortes, mas já luto há algum tempo para pelo menos sugerir nas escolas que atuo que sejam mais significativas e menos exaustivas para as crianças e até para a equipe, que mal termina uma data e já pensa na outra, fazendo malabarismo com o currículo e outras formalidades. Até postei algo sobre isso esta semana no blog que colaboro, porém mais como uma reflexão… um desabafo.

    • Cara Patricia, gosto muito desta prosa com os pais, que ao meu ver não são resistentes. Pelo contrário! Só precisam de boas explicações. Que bom saber que nossas reflexões têm dialogado. Um abraço.

  12. Adorei a reflexão! Em nossas unidades também estamos publicando mudanças em relação às datas comemorativas, tarefa nada fácil!!!!
    Parabéns!
    Kelly/UNIEPRE

  13. Dayse, muitíssimo obrigada pelo ALIMENTO. Sim, pois seu texto foi um alimento às minhas crenças e concepções. Há 29 anos na educação do município de São Paulo e destes, quatorze como coordenadora pedagógica em EMEIs, esta é uma batalha sem fim, nem tanto em relação aos pais, que como você mesma disse, só precisam ser melhor informados, esclarecidos, mas mais fortemente junto às educadoras. Nestes anos, tive o prazer e o privilégio de conviver com ótimos profissionais e uma delas, Marisa Paulino, passou por aí, com vocês. Mais uma vez, obrigada !

    • Olá Cristina,
      Muito bem colocada a sua questão sobre crenças e concepções. Como educadora, vc traz aqui uma oportuna reflexão sobre este aspecto da formação em serviço. Muitas crenças que carregamos nos impedem de fazer avançar do ponto de vista do desenvolvimento profissional. Seja em relação à alfabetização, seja em relação às mudanças ocorridas na sociedade, como a questão da família. É curioso isso, não é mesmo? Somos educadores mas também somos homens e mulheres, pais e mães, filhos e filhas, e ainda assim insistimos, enquanto educadores, em negar algumas transformações. Têm outras coisas por trás disso tb, penso eu, como resolver o problema do currículo nas escolas ocupando o tempo (insisto no tempo) de que dispomos com este tipo de atividade. Este é outro obstáculo! O que ensinar? Qual é a função da escola? Qual é o nosso papel, como professores, na formação de nossos alunos? Vamos ver como progredimos, por exemplo, com as políticas públicas a partir das novas diretrizes curriculares para a Educação Infantil. Este segmento de tamanha importância na Educação Básica, mas que até então nao era assumido como parte da educação obrigatória no Brasil.
      Muitissimo obrigada por sua contribuição aqui.
      Dayse.

  14. Muito bom este post.
    Graças a Deus a escola de meu filho tem esta conciência. Pedem o mínimo de dinheiro possível com atividades extras, apresentação só no fim do ano…. mas ainda precisam checar o horário da reunião de pais…pq 15h30 numa segunda, ninguém merece….ainda mais pra mãe que trabalha na zona oeste, mora na zona leste e não tem carro….
    Parabéns.

    • Olá Fernanda. É complicado mesmo. Para quem não trabalha, tudo bem, mas e o restante do mundo? É complicado para a escola, tb posso compreender.
      Gasta-se menos com folha de pagmento, pois não tem hora extra para remunerar, mas desconsidera-se a dificuldade que os pais têm para saber mais
      sobre o trabalho realizado. Que bom quanto ao resto vc está satisfeita. Obrigada por passar por aqui. Um abraço.

  15. Adorei, Dayse, obrigada.
    Quando a gente ouve esta afirmação “Esta escola não comemora o dia das mães”, a gente estranha, já que é algo tão usual a que estamos tão acostumados e nem pensamos a respeito.
    Depois de sua reflexão, fica clara a posição da escola e faz todo o sentido com o que a escola propõe. Aliás, como é bom lidarmos com uma Instituição que tem uma posição clara e não segue modismos.

    • Olá Helena. Como eu disse em algum momento por aqui, há sempre um projeto de sociedade por trás de um projeto pedagógico. Nem que não se tenha clareza disso. Por isso é melhor esclarecermos as coisas, não é mesmo? Um abraço.

  16. Olá, querida!

    Gostei muito do texto! Gostaria de sua autorização para publicá-lo em meu blog. Esse tema tem me deixado bem cansada nas escolas por onde passo…

    Abraços,
    Eliane

  17. Excelente reflexão! Estudar e trabalhar na Vila foram marcos em minha carreira profissional. Trabalhando com educação, é bom ter passado por uma entre as poucas instituições de referência, em que há espaço para as inovações necessárias pelas quais devemos passar!
    Encaminharei o texto para colegas!
    Obrigada pela reflexão!
    Abraços,
    Paula Rego.

  18. Gostei muito! Eu acho ótima está opção, pois considero estas datas meio chatas…

    Gostaria de deixar um depoimento: outro dia ficamos super felizes, eu e Cecília, ao vermos em um desenho animado, que a mãe do personagem ganhava um desenho quando ia busca-lo na escola, igualizinho como é na Escola da Vila. Vibramos juntas…, e eu vi como me sinto prestigiada nesta rotina que vc estabeleceram. Obrigada!!!

    Abraços,
    Ana

  19. MUDANÇA pelas divinas palavras de Clarice

    Sente-se em outra cadeira, no outro lado da mesa. Mais tarde, mude de mesa.

    Quando sair, procure andar pelo outro lado da rua. Depois, mude de caminho, ande por outras ruas, calmamente, observando com atenção os lugares por onde você passa.

    Tome outros ônibus.

    Mude por uns tempos o estilo das roupas. Dê os seus sapatos velhos. Procure andar descalço alguns dias. Tire uma tarde inteira para passear livremente na praia, ou no parque, e ouvir o canto dos passarinhos.

    Veja o mundo de outras perspectivas.

    Abra e feche as gavetas e portas com a mão esquerda. Durma no outro lado da cama… Depois, procure dormir em outras camas. Assista a outros programas de tv, compre outros jornais… leia outros livros.

    Viva outros romances.

    Não faça do hábito um estilo de vida. Ame a novidade. Durma mais tarde. Durma mais cedo.

    Aprenda uma palavra nova por dia numa outra língua.

    Corrija a postura.

    Coma um pouco menos, escolha comidas diferentes, novos temperos, novas cores, novas delícias.

    Tente o novo todo dia. O novo lado, o novo método, o novo sabor, o novo jeito, o novo prazer, o novo amor.

    A nova vida. Tente. Busque novos amigos. Tente novos amores. Faça novas relações.

    Almoce em outros locais, vá a outros restaurantes, tome outro tipo de bebida, compre pão em outra padaria.

    Almoce mais cedo, jante mais tarde ou vice-versa.

    Escolha outro mercado… outra marca de sabonete, outro creme dental… Tome banho em novos horários.

    Use canetas de outras cores. Vá passear em outros lugares.

    Ame muito, cada vez mais, de modos diferentes.

    Troque de bolsa, de carteira, de malas, troque de carro, compre novos óculos, escreva outras poesias.

    Jogue os velhos relógios, quebre delicadamente esses horrorosos despertadores.

    Abra conta em outro banco. Vá a outros cinemas, outros cabeleireiros, outros teatros, visite novos museus.

    Mude.

    Lembre-se de que a Vida é uma só. E pense seriamente em arrumar um outro emprego, uma nova ocupação, um trabalho mais light, mais prazeroso, mais digno, mais humano.

    Se você não encontrar razões para ser livre, invente-as. Seja criativo.

    E aproveite para fazer uma viagem despretensiosa, longa, se possível sem destino. Experimente coisas novas. Troque novamente. Mude, de novo. Experimente outra vez.

    Você certamente conhecerá coisas melhores e coisas piores do que as já conhecidas, mas não é isso o que importa.

    O mais importante é a mudança, o movimento, o dinamismo, a energia. Só o que está morto não muda !

    Repito por pura alegria de viver: a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não

    vale a pena!

    C.Lispector

  20. Ou simplesmente por Fernando Pessoa

    “Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.” Fernando Pessoa

  21. Olá!
    Adorei o texto. Parabéns!!! Compartilho do mesmo pensamento.
    Como já li em outros posts e vi que é possível, também publiquei o texto no meu BLOG com a devida referência.
    Obrigada,
    Adrianna

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