Tradutores eletrônicos: inimigos ou aliados? Como e quando fazer uso deles?

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Sandra Tatiana Baumel Durazzo – coordenação de línguas estrangeiras

Os tradutores eletrônicos, Google e outras ferramentas, soam para muitos como a solução para comunicar-se em qualquer idioma. Se os computadores podem converter qualquer texto imediatamente, para quê estudar tanto????

Os cursos de línguas estrangeiras da Escola da Vila, tanto em inglês quanto espanhol, trabalham exatamente na direção oposta a essa visão. Os alunos são levados a perceber o idioma estrangeiro como forma de expressão de cultura, que abrange também uma visão de mundo. Nessa perspectiva, percebem que a língua expressa mais do que simples palavras, que ela é viva e se modifica de acordo com as mudanças da sociedade, com o propósito da comunicação, com a relação entre os interlocutores.

Recentemente, os alunos do 9º ano discutiram essa questão nas aulas de inglês. Uma das explicações de como funcionam os tradutores, extraída de um artigo publicado em revista semanal de grande circulação, diz: “… os computadores do Google trabalham com pares de textos em línguas diferentes e calculam a probabilidade de palavras de uma delas corresponderem a termos da outra…“   Uma primeira discussão girou em torno dessa afirmação. O que significa probabilidade? Peguemos o exemplo da palavra manga – qual é a mais “provável” de aparecer em textos? A fruta ou a parte da vestimenta? Pode-se compreender um texto substituindo uma pela outra?

Após esse disparador, foi proposta a análise de uma tradução do livro Catcher in the Rye, que eles lerão em versão original no 1º ano do ensino médio. O narrador desse livro é um adolescente que usa muitas gírias e expressões coloquiais. A discussão começou propondo a leitura de um trecho da versão traduzida por Álvaro Alencar, Antonio Rocha e Jório Dauster. Os tradutores usam expressões como lenga-lenga. O que é isso? O que significa “lenga”? Qual é o correspondente em inglês para essa expressão em português? Deparar-se com essas perguntas foi rico para que os alunos percebessem como as expressões são temporais, requerem um conhecimento profundo do que se quer dizer, nesse caso, expressar o estado de ânimo do protagonista.

Em seguida, os alunos fizeram o processo inverso. Tomando outro trecho do mesmo livro, na versão original em inglês: “… before I got pretty run-down…” O que significa “run-down”? Qual é o sentido do adjetivo “pretty” nessa frase? Qual é o significado mais frequente do adjetivo “pretty” (que provavelmente seria a escolha dos tradutores eletrônicos)?

Finalmente todos testaram os tradutores, colocando um texto escrito por eles no tradutor, e depois, traduzindo novamente para a língua original. Esse processo demonstrou claramente a impossibilidade de um programa de computador acessar todas as informações necessárias para uma boa tradução: quem fala, para quem, para quê, quando, onde, etc.

É claro que os tradutores têm seu valor. Para listas, palavras específicas, até mesmo textos curtos e precisos como manuais de instrução técnica, os tradutores ajudam e muito! As versões mais recentes estão cada vez melhores e podem oferecer resultados satisfatórios até para os leitores mais exigentes. Como todos os avanços tecnológicos, sabendo usar, serão bons aliados. Mas por trás de toda máquina, é preciso ter um ser humano pensante!

2 ideias sobre “Tradutores eletrônicos: inimigos ou aliados? Como e quando fazer uso deles?

  1. Olá, gostei muito desse artigo. Os processos tradutórios quem envolveram os alunos foram muito interessantes, como achar correspondente para ‘lenga-lenga’, etc. Estou pesquisando para o mestrado e encontrei esta página na internet. Parabéns pelo trabalho!

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