Mito: O aluno tem de descobrir por si mesmo?

Por Aline Evangelista Martins – Coordenação da Área de Língua Portuguesa e Literatura

“Se a experiência do leitor é ignorada pela instituição, esse leitor aprenderá que não é válida ou interessante e terminará ignorando-a também. Aqueles que aprendem a dizer o que a professora quer ouvir obtêm boas qualificações. Os outros aprendem a calar-se”.
Evelyn Arizpe

Na Escola da Vila, os alunos, desde muito pequenos, leem obras completas e falam sobre livros. Contam o que pensam sobre a leitura, comentam o que imaginam que vai acontecer, comparam uma determinada obra com outras que conhecem, refletem sobre o que é narrado e sobre como a narrativa se constrói.

Esses espaços de intercâmbio se parecem bastante com as situações sociais, que ocorrem fora da escola. Quando lemos um livro ou assistimos a um filme, é natural que queiramos interagir com outros leitores ou espectadores e com a crítica, para confrontar pontos de vista, para falar sobre os sentimentos e dúvidas que a obra suscitou, para conhecer interpretações diferentes… Quanto mais marcante a experiência, maior o desejo de compartilhar.

No ambiente das aulas de língua portuguesa, acontecem situações parecidas com as que ocorrem socialmente, porque essa é uma via potente para gerar a sensação de pertencimento a uma comunidade de leitores e porque estamos seguros de que, na interação, a interpretação avança e as aprendizagens se consolidam. Os objetivos de ensino e aprendizagem que orientam as conversas literárias são inúmeros. Um dos principais é comunicar ao aluno que suas respostas pessoais em relação à leitura têm valor, importam, são consideradas e bem-vindas. A reiteração dessa prática promove avanços significativos na construção de opiniões mais complexas e bem fundamentadas.

O professor intervém o tempo todo, pedindo exemplos e justificativas, provocando o debate, problematizando, incentivando a troca de pontos de vista, oferecendo textos teóricos que ajudam a resolver problemas. Não se trata de deixar o aluno sozinho, descobrindo por si mesmo o valor de um texto. Trata-se, sobretudo, de oferecer situações didáticas que considerem os interesses do leitor e os tomem como ponto de partida para promover o avanço na construção de respostas leitoras cada vez mais elaboradas. Para atuar dessa forma, é imprescindível que o professor conheça muito bem o texto e os alunos, que planeje as intervenções, que as realize oportunamente, que antecipe os pontos de tensão, que gerencie bem as discussões, que esteja sempre atualizado em relação ao marco teórico que orienta a construção da autonomia do leitor. Ainda que planeje minuciosamente, o professor precisa estar sempre atento às surpresas, aos temas que não estavam previstos, mas que, quando apontados pelos alunos, rendem reflexões interessantíssimas.

O diálogo que segue traz um bom exemplo de interação cooperativa entre alunos de 4º ano. A comparação entre cinema e literatura não estava planejada, mas revelou-se uma situação muito potente para a reflexão sobre a voz narrativa, esse sim, um tema planejado. É interessante comparar os trechos em negrito. O aluno 1 considera a pergunta da professora e os exemplos, as considerações e as explicações de seus colegas para reelaborar seu pensamento. Além disso, incorpora ao seu discurso termos empregados por eles e, em dado momento, apresenta ao grupo um argumento muito mais elaborado, produto da interação.

Aluno 1 – O livro que estou lendo também é um filme, tanto que no final há umas imagens do filme.

Professora – Qual é o livro?

Aluno 1 – Viagens de Gulliver.

Aluno 2 – Eu vi o filme e li o livro de Gulliver.

Professora – Do que você gostou mais: de ver o filme ou de ler o livro?

Aluno 2 – De ler o livro.

Aluno 1 – Porque algumas vezes o livro traz mais informação que o filme.

Aluno 3 – Porque você não vê as imagens, então tem que ter mais informação. Olhando as imagens a gente entende, mas …

Aluno 1 – É que há mais letras que imagens.

Aluno 4 –  Não  aparece escrito “ele foi a tal lugar”.

Professora – No livro está escrito “ele foi a tal lugar”. O que acontece no filme?

Aluno 5 – Ele aparece indo.

Professora – Sim, ele aparece indo.

Aluno 1 – Claro, não há uma voz no filme.

Aluno 2 – Nos filmes não há muitos narradores. Nos filmes não há narradores.

Aluno 6 – Mas dá para pôr narrador nos DVDs, se quiser.

Aluno 1 – No filme dá para mostrar a pessoa andando e é estranho aparecer uma voz falando “e ele foi ao teatro”. Nós vemos que ele está indo ao teatro, mas no livro, se aparece só o homem caminhando e não se vê o teatro nem nada mais, o narrador tem que explicar “e ele estava se dirigindo ao teatro”. Não dá para pôr só a imagem de uma pessoa andando e não pôr nenhuma informação. Ele pode estar se dirigindo a qualquer lugar. Se o narrador não põe a informação, ele está se dirigindo ao nada.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *