O tempo da arte

5_05_2014

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Por Karen Greif Amar

Imagine você estar frente a imagens que reproduzam obras de um artista e seu desafio, nesse momento, é organizá-las de forma que apresentem, em ordem cronológica, a trajetória desse mesmo artista mostrando as transformações ocorridas ao longo de seu percurso. O que levaria em conta para realizar essa tarefa?

As hipóteses levantadas pelos alunos na hora em que precisam se posicionar quanto ao desafio lançado não se distanciam de sua experiência desenhista, já que o que possuem de mais concreto para guiá-los nessa tarefa é o próprio percurso enquanto estudante.

 “Eu acho que ele foi do mais fácil e foi indo para o mais difícil, que nem essas pinturas”.

Na fala de um aluno, a hipótese que relata essa trajetória – o artista parte das formas simples, geométricas e mais fáceis de fazer para depois, bem velhinho e muito craque, pintar paisagens cheias de detalhes.  Aqui encontramos em jogo dois processos de percursos diferentes entrando em contato, ambos relacionados com o tempo. O processo cognitivo do aluno que se desenvolve na infância ainda recente na memória, que é utilizado como referência, e o processo criativo do artista, desenvolvido ao longo de seu trabalho. Que estratégias utilizamos na escola para que o aluno disponha de elementos para compreender o próprio tempo e o tempo do outro?

O artista brasileiro Alfredo Volpi tem sua obra como ponto de partida para que alunos do 3º ano investiguem o tempo tendo como eixo norteador a trajetória de um artista. Tenho certeza de que os alunos iniciam assim, um olhar diferenciado e único sobre os percursos pessoais de trabalho em arte – dos artistas e deles mesmos – e esse momento dispara um olhar investigativo que os acompanha ao longo do estudo em arte na escola. Por ter um caminho muito claro em suas diferentes fases, Volpi tem o poder de encantar os alunos dessa série a ponto deles se questionarem sobre os aspectos que permeiam as investigações, as escolhas e as pesquisas de um artista.

Por que ele pintava dessa forma quando já estava bem velhinho? Por que escolheu produzir seu próprio material de trabalho? Por que Volpi começou pintando paisagens e terminou na abstração? Por que pesquisar a trajetória de um artista é importante?

O tempo de um percurso carrega com ele aspectos distintos que são insubstituíveis. Toda e qualquer referência, escolha e ação, diretamente influencia o caminho percorrido por um artista. No caso do Volpi, isso fica muito claro para os alunos na medida em que pesquisam como seu trabalho se transformou. A escolha por usar uma tinta produzida por ele mesmo, a maneira como ele se envolveu com as cores e as formas, tornando-as os elementos principais de sua pesquisa, são aspectos importantes desse estudo.

Através do trabalho, os alunos resgatam o seu próprio percurso desenhista, e, por esse motivo, compreender como Volpi partiu da figuração para a abstração, que é o caminho contrário dos alunos até então em suas produções, é uma surpresa. Mas não é somente nesse momento da escolaridade que se deparam com a possibilidade de refletir sobre a própria produção. Com o intuito de desenvolver um percurso de criação em arte, ao longo da escolaridade são muitos os momentos em que eles desenvolvem um trabalho no ateliê. Nesses momentos. o que está em jogo é a capacidade de investigar e dar forma, utilizando os diferentes materiais da oficina, às próprias ideias, vontades, inquietações, questões pessoais, desejos e curiosidades. Ter e entrar em contato com o seu próprio tempo.

Nesses momentos, é interessante perceber os diferentes interesses dos alunos! Diante de um ateliê coletivo, que ferve com produções tão particulares ocorrendo simultaneamente, é claro que a vontade de misturar materiais, investir em um procedimento de que se gosta muito, experimentar fazer algo que o colega está fazendo, traz uma convivência em harmonia com dúvidas, incertezas e tentativas de algo que não se sabe ainda muito bem o que é.

Chego aqui novamente no aspecto que parece dar forma a todos os outros que envolvem o fazer artístico – o tempo. E com o tempo pode-se ganhar e aprender mais sobre si, sobre o outro, sobre as transformações – na arte, na produção e no que permanece.

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