“É extremamente triste estar sozinho quando se encontra a beleza.”

Bartolomeu Campos de Queirós, conferência durante o Simpósio do Livro Infantil e Juvenil, Colômbia-Brasil, Bogotá, 7-9/10/2007

09_05_2014

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Por Aline Evangelista Martins*

A declaração de Bartolomeu Campos de Queirós, título deste post, é um dos motes do trabalho com leitura compartilhada na Escola da Vila. Quem já esteve numa sala de aula repleta de jovens extasiados diante de um poema, um conto ou um trecho de romance sabe o quanto é tocante presenciar o encontro com a beleza e o natural desejo de compartilhar o estranhamento, a emoção, enfim, a experiência estética.

Esse impulso de buscar o outro para falar sobre o que é impactante evidencia-se em muitas outras situações do nosso dia a dia na escola: no burburinho da sala dos professores, não faltam relatos de momentos interessantes das aulas, comentários sobre produções, discussões sobre o que os alunos falaram, o que pensaram, o que fizeram. É difícil estar sozinho quando tantas coisas interessantes acontecem. E é muito bom encontrar os colegas para falar sobre tudo isso. Quem já esteve numa sala dos professores repleta de ideias, análises, inquietações e deslumbramentos sabe do que estou falando…

A busca por alguém com quem dividir o impacto é também muito recorrente nos momentos de correção e de análise da produção dos alunos. É bem rotineiro observar, na biblioteca, na sala dos professores e em outros espaços de trabalho da escola, docentes que rompem o silêncio e a solidão do trabalho avaliativo para comentar com colegas uma frase, um parágrafo, um texto inteiro: “Veja o que esse aluno escreveu!”. “Desculpe, vejo que você está ocupada agora, mas queria só te mostrar essas respostas que foram dadas para a questão 2 da prova!”. Quem já se esmerou em preparar o plano de um curso, elaborar uma prova para avaliar as aprendizagens e, por fim, analisar as respostas dos alunos, sabe o quanto a avaliação pode ser mobilizadora.

Avaliar é, antes de tudo, buscar  informação. Avaliamos porque precisamos nos informar sobre a concretização do planejamento. Para tanto, é essencial  saber como cada um dos nossos alunos pensa, posiciona-se e produz a partir daquilo que aconteceu nas aulas. A análise dessa informação determina os rumos das etapas seguintes, afinal, a partir dela, são feitos os ajustes no plano inicial. Por outro lado, a avaliação dá ao aluno um retorno sobre o seu desempenho em relação às expectativas de aprendizagem e possibilita a autorregulação, ou seja “a capacidade de exercer controle sobre as suas atividades e, em particular, as suas aprendizagens” (Hadji, 2011, p. 45).

Pode parecer estranho começar uma reflexão sobre avaliação comentando o encontro com a beleza. Mas o nosso cotidiano na escola evidencia que as duas esferas estão muito próximas. No momento da avaliação, vemos a concretização do nosso currículo, o resultado das nossas intervenções, a aprendizagem dos nossos alunos, aquilo que eles constroem, por onde caminham, que questões formulam, que dúvidas têm, que erros cometem. Dúvidas, reflexões, perguntas, formulações, erros: tudo isso é construção de conhecimento. Quem já se dedicou à tarefa de avaliar sabe que encontrar nos instrumentos da avaliação a voz daquele que aprende é, sim, muito bonito. Por isso não resistimos ao desejo de compartilhar.


HADJI, Charles. Ajudar os alunos a fazer a autorregulação da sua aprendizagem: por quê? Como? Pinhais: Editora Melo, 2011.

(*) Aline é coordenadora da área de LPL e responsável por vários cursos, presenciais e online,  oferecidos nas programações do Centro de Formação da Escola da Vila, entre os quais “Avaliação da produção escrita: desafios e possibilidades”.

10 ideias sobre ““É extremamente triste estar sozinho quando se encontra a beleza.”

  1. Aline, que encanto de texto! Só você mesma para juntar a experiência estética com os processos avaliativos com essa propriedade. Este texto me levou a momentos específicos de minha vida como educadora na Escola da Vila nos quais a beleza das produções dos alunos foram percebidas por nós professores por estarmos enfim compreendendo melhor certos processos de aprendizagem, e só por isso a beleza da conquista, do conhecimento, ficava evidente, tornava-se observável pela lente da teoria aprendida! Lembro-me de estar pulando pelos corredores da antiga Criarte, quando começamos, gritando, olha, eles “entraram na garatuja” (hoje esse comentário soa cômico); ou mais tarde, depois da leitura da Psicogênese da Escrita, os grupos de professores animadamente verificando se as pseudo escrituras de seus pequenos alunos correspondiam a etapa silábica ou silábico-alfabética; ou ainda quando os professores perplexos comentavam as diversas maneiras de resolver um problema que seus alunos encontraram. Isso tudo me faz pensar o quanto precisamos aprender a desvendar a produção de nossos alunos, constantemente. Aliás, tema do nosso Simpósio este ano, não é mesmo? Obrigada pelo texto, adorei!

  2. Aline, gostei muito de seu texto! Você traz o aspecto reflexivo da avaliação, como um momento de pensar o processo de aprendizagem do ponto de vista de quem aprende e, também, de quem ensina. A partir desse referencial, há sim espaço para a beleza e para os momentos de compartilhar. Esse espaço é um deles. Chega de avaliações normativas!! Um abraço, Carla

  3. Que interessante trazer, na idéia do experiência estética, a dimensão do coletivo. Às vezes, numa perspectiva mais rasa, a avaliação pode ser vista apenas como uma verificação individual, um feedback estritamente pessoal, mas pensando na experiência compartilhada ela ganha um horizonte maior, de todos. Preriro pensar assim, numa avaliação que reverbera em todos.

  4. Aline! Lindo texto, fique emocionada! De fato, há diversas belezas nas produções de nossos alunos e é muito feliz poder contar com uma equipe disponível para compartilhar – e alimentar – esse olhar sensível em relação ao Outro. Obrigada!

  5. Um texto que acalenta os corações dos que pensam VERDADEIRAMENTE em educação. Obrigado por poder me encantar com as experiências de vocês que tanto vão de encontro com minha forma de pensar e agir em sala de aula , mas que muitas vezes não são compreendidas e tentam me “engessar” na minhas práticas .

  6. É verdade. No passado havia uma barreira entre o professor e o aluno. Com isso nada se construía ao contrário, era como o muro de Berlim. Hoje, já conscientes de nossas falhas sabemos que precisamos nos unir, chegar mais perto do aluno e ver que muito eles podem nos ensinar também. Trazem eles o futuro da humanidade dentro de si. Serão os homens de amanhã e o que mais precisam nesta idade de aprendiz escolar é de uma boa escola com professores preparados para auxilia-los e guia-los nesta nova trilha que pretendemos e já estamos a abrir. A beleza esta ai. Na natureza, em toda parte e dentro de nós. Se revela em nossas ações e em nossos atos. Compartilhar com todos desta beleza é como dividir o pão e ver a Unidade em cada olhar, em cada irmão. São eles (os alunos) a salvação do mundo e saber educa-los e trabalhar nesta Obra é gratificante.

  7. Gosto muito do assunto e por isso vou continuar a expressar a minha opinião. Esta “avaliação” que você fala ser muito importante é igual a do Médico Homeopata que ao receber em seu consultório um doente, antes de lhe dar o medicamento para o seu mal, faz uma série de perguntas desde o seu nascimento até o dia da consulta. Só depois de saber a história de seu paciente, faz uma pesquisa em seus livros, (companheiros) e prescreve a medicação correta ciente de que com ele seu paciente ficará livre do mal que o aflige. Tudo tem um porque de “fundo psicológico” que o faz acertar na mosca. Desculpa o termo mas sei que você me entende. Este exemplo é para dizer que todos nós somos seres iguais mas ao mesmo tempo diferentes. Basta ver que não existe duas digitais iguais, não é mesmo? É por isso que precisamos usar uma técnica muito delicada e especial quando se trata de educar crianças e até mesmo os jovens de agora. Precisamos nos chegar, buscar compreende-los, analisando o perfil de cada um. Todos somos iguais porém cada um se encontra num grau de evolução diferente. Tudo isso nos é revelado através de seus gestos; nas suas ações e no seu modo de se expressar. Neste contato com os alunos podem os professores sentir essa Beleza tão bem mencionada que é a vida. É como uma aproximação maior despida de obstáculos que no passado formavam as chamadas muralhas ou barreiras. Desta aproximação é que resultará bons frutos e uma bela colheita para ambos os lados. Todos sentirão que na união harmoniosa um clima de paz e amor se instala em beneficio de todos. Por hoje é só. Obrigada por permitir deixar meu coração expresso em palavras de carinho nesta sua Obra. Parabéns.

  8. —- “Falando agora sobre o convívio numa classe ou em qualquer lugar”. Já sabemos e muito bem que na desarmonia, só existe briga; desunião e nada de progresso. Sabemos também que na harmonia não pode haver separação. Basta haver duas pessoas, duas pessoas somente, para que a harmonia se instale ou não. Se Sim, tudo será um mar de rosas, se Não já sabemos as consequências. Se nosso objetivo é um mundo melhor para nós; para nossos filhos e para todos enfim, temos que buscar essa harmonia. Essa harmonia não se acha a venda em loja nenhuma e muito menos fora de nós. Somos filhos do Criador, seres Sábios e inteligentes. No amago do nosso ser um Tesouro se acha escondido e ao abri-lo com muito cuidado uma palavra se encontra adormecida; esquecida: HARMONIA. É preciso fazer como o príncipe dos contos de Fada: ACORDA-LA e restabelecer a ordem. É só nesta harmonia; nesta união coletiva que o Novo; o Belo pode surgir. O velho nunca poderá ser novo, mas o novo saberá plantar para que o velho possa voltar mais sábio e mais humano. Se sabemos que a Vida é um eterno “VIR A SER”, temos que ter fé e crer nestas crianças (já programadas pelo pai). Um contato mais harmonioso com os pais; um contato mais harmonioso com os professores trará sem duvida alguma um grande benefício para todos nós. Para os pais; para a escola; para os professores e para os próprios alunos. A comunidade sentirá o seu progresso e o seu efeito. Não haverá com isso um vencedor; todos serão vencedores. Bem, gostaria de saber se minha escrita esta sendo aprovada. Tudo o que quero é colaborar para que as escolas partam para um rumo mais humano e criativo, se tornando um ELO de União com tudo e com todos. Obrigada.

  9. Agradeço a todos pelos comentários!
    Parece que estamos todos de acordo quanto ao potencial da avaliação para oferecer oportunidades privilegiadas para analisar a produção do aluno, tomar decisões mais acertadas e aprender, sempre.
    Charles Hadji nos alerta: a avaliação cumpre seu papel se colabora para ajudar a ensinar e para ajudar a aprender. Estamos sempre buscando a melhor forma de concretizar essa ideia de avaliação.

    Voltaremos a falar sobre o tema!

    Obrigada a todos por acompanharem o nosso blog.

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