Como manter a eficiência dos estudos durante a quarentena?

Escola da Vila

Seguir uma rotina e se organizar para cumprir as tarefas é fundamental; alunos devem compreender que a aprendizagem vai continuar em casa e encarar o desafio com seriedade

Em época de isolamento social devido à pandemia do novo coronavírus, as escolas suspenderam as aulas presenciais, mas continuam enviando tarefas e atividades para os alunos realizarem a distância. Para essa aprendizagem fluir da melhor forma possível em casa, os estudantes precisam ter organização e foco e entender que algumas adaptações e esforços são necessários para contornar esse momento bem particular.

“É importante que as crianças e os adolescentes tenham consciência que o estudo, devido a essa situação específica que estamos vivendo, não está sendo realizado na escola, mas segue em casa como parte da aprendizagem”, diz Vera Maria Barreira, orientadora educacional e coordenadora do Ensino Fundamental II da Escola da Vila. “O fato de estarem inseridos numa rotina escolar também traz tranquilidade e contribui para a saúde mental dos alunos”.

Para o estudo acontecer de forma adequada, algumas orientações são relevantes. A coordenadora destaca a importância de seguir uma rotina para fazer as tarefas e atividades, de preferência, no mesmo horário em que o estudante tinha as aulas presenciais. “Não é recomendável, por exemplo, ficar no ‘modo férias’, dormir tarde e procrastinar as tarefas. Indicamos para iniciarem as atividades por volta das 8 horas e seguirem assim durante toda a manhã, como na escola”.

O local onde o aluno vai estudar em casa também deve ser visto com atenção, pois precisa permitir que ele se concentre e foque nos estudos. “Ambientes dispersivos, onde a televisão esteja ligada, devem ser evitados. O noticiário fala da crise do coronavírus o tempo todo, e precisamos proteger um pouco as crianças desse bombardeio de informações”, aponta a educadora.

Conseguir se organizar para dar conta de tudo, distribuindo as atividades pelos dias da semana e cumprindo os prazos de entrega de cada uma, é outro desafio que merece cuidado. A coordenadora conta que no ambiente virtual de aprendizagem os alunos têm acesso a uma lista com todas as atividades reunidas e horários dos encontros virtuais com os professores, para facilitar a visualização do todo. Os estudantes também podem marcar o que já fizeram e o que falta fazer para ajudar no controle. Segundo ela, o ideal é não acumular lições e terminar os afazeres até a sexta-feira, para terem o fim de semana livre.

Mesmo no isolamento domiciliar, o estudante não deve ficar sozinho, mas formar grupos para trabalhar. “Participar dos chats e hangouts é essencial para interagir, trocar ideias e se manter conectado com a turma e professores”, destaca Vera.

A disponibilidade dos pais nesse momento, para poderem apoiar os filhos nas eventuais dificuldades, é outro fator fundamental. “Mandamos comunicados às famílias informando que os conteúdos estão no ambiente virtual de aprendizagem. Os pais podem contatar a escola para qualquer ajuda que precisarem ou esclarecimento de dúvida e acionar por e-mail os orientadores de cada turma”, finaliza a coordenadora.

O corpo e o movimento em época de pandemia

Escola da Vila

Clique na imagem para assistir a uma aula de educação corporal

Por Marcos Santos Mourão (Marcola), professor de Educação Física

Quem poderia imaginar que parte significativa da população mundial permaneceria em quarentena, dentro de casa, para preservar a si e à parcela mais vulnerável da população exposta a uma pandemia. Hábitos tão corriqueiros como sair de casa para ir ao trabalho, à faculdade, à escola, encontrar com as pessoas, relacionar-se presencialmente tornaram-se distantes da rotina de muitas famílias. De uma hora para a outra, uma nova rotina que considere e inclua os moradores de uma casa nas atividades domésticas, como limpeza, preparação de alimentos, arrumação e limpeza da casa, torna-se fundamental. Para aqueles com crianças, principalmente as menores, um grande desafio é conciliar os cuidados, a atenção e a educação dos filhos com o trabalho, o tal do “home office”. Como se tudo isso não bastasse, a prospecção das finanças para os próximos meses é capaz de trazer um quadro emocional de muita instabilidade, nos afastando de algo essencial para a qualidade de vida: o nosso corpo.

Nesta época de pandemia, além da tendência de se dedicar exclusivamente a outras coisas a se fazer, passamos a desconfiar do corpo alheio, evitar aproximação, toque, contato, afinal, o vírus não se locomove sozinho, ele precisa de alguém que o carregue, toque em superfícies, em outras pessoas. Ainda não sabemos os efeitos psicológicos que esse afastamento trará às pessoas, principalmente às crianças. Muitos dilemas decorrentes dessa inusitada experiência familiar estão sendo vividos somente agora.  O que podemos e devemos fazer neste momento de quarentena para que essas questões não nos absorvam completamente é garantir momentos de encontros coletivos e individuais. As crianças precisam certamente de atenção, de momentos de leitura, conversa, brincadeiras com a família. Mas necessitam também de espaços reservados, sozinhas, para explorar e descobrir diferentes possibilidades com o próprio corpo e o movimento, sem o direcionamento do adulto, do professor. Não será fácil, principalmente para aquelas acostumadas a uma agenda diária que inclui diversas atividades na semana. Ter que inventar desafios corporais, brincadeiras, construir percursos, sentir tédio fará parte deste momento que estão atravessando. Para os adolescentes, mais habituados as interações nos formatos digitais, viver uma experiência de limitação física como a de uma quarentena pode aumentar consideravelmente o tempo de permanência parado na frente de seus celulares e computadores. Assim como com as crianças, é importante trazê-los para situações coletivas do cotidiano, rompendo a magia com a roupa limpa de casa, a comida pronta, a louça lavada, a arrumação do quarto. A adolescência costuma ser um período no qual impera a sensação de onipotência, ou seja, o corpo pode tudo, suporta tudo. Enfrentar uma situação de restrição e limitação corporal pode ser uma interessante oportunidade de diálogo.               

E os adultos?  Os adultos estão na linha de frente desta batalha e, mais do que ninguém, precisam de um tempo para cuidar de seus corpos. É hora de resgatar ou preservar aquilo que dá prazer e sentido na atividade corporal, seja um relaxamento, uma sessão de alongamento, dança, ginástica, luta, ioga, tai chi chuan, caminhada, corrida, enfim, algo que promova um encontro consigo, com qualidade, para diminuir o nível de stress e contribuir para uma boa imunidade corporal. Nesse sentido, segue link para uma aula de movimentos primários de educação corporal.

As escolas e o desafio da aprendizagem das crianças de 4 e 5 anos na crise do coronavírus

Por Sonia Barreira, sócia fundadora da Escola da Vila, atualmente é diretora pedagógica da Bahema Educação


O debate sobre a importância da educação online ou a distância, neste período de isolamento social,  parece ter conseguido consensos e até unanimidade quando falamos das crianças maiores, dos pré-adolescentes e dos jovens. Tanto as escolas como os órgãos oficiais se apressaram em viabilizar o seguimento do ano letivo com o ensino a distância e os educadores passaram a enfrentar o desafio diário de manter todos os alunos e alunas motivados, interessados e construindo conhecimentos.

Mas e os menores, de 4 e 5 anos? A controvérsia, neste caso, pode ser maior.

Há aqueles que falam apenas em manutenção do vínculo, por meio de histórias e vídeos, e em muitas escolas, os professores têm mantido contato com suas turmas e distraído os pequenos em alguns períodos do dia. Afeto e entretenimento.

Mas será que a necessidade das crianças dessa idade se limita a isso? Sabemos que, nessa faixa etária, os pequenos aprendem muito por meio das representações, do “faz de conta” e por isso brincar é tão importante. Afinal trata-se de uma poderosa atividade espontânea que ajuda as crianças a compreenderem o mundo, a organizarem seus sentimentos e a expressarem seus desejos e medos, além de favorecer maneiras de  interpretar a realidade. E, para isso, nada melhor do que o convívio com seus pares em ambiente seguro. É exatamente o que não temos agora!

E é precisamente por essa razão, que os educadores especializados na infância  fazem ainda mais falta nesse momento. Se as crianças já estão privadas do convívio e dos desafios das brincadeiras espontâneas, precisam ainda mais de boas e adequadas propostas para que possam seguir aprendendo e desenvolvendo suas capacidades humanas.

Se não há a briga e a disputa pelo brinquedo nas atividades presenciais, o educador pode oferecer narrativas que trazem a experiência do conflito e das possíveis resoluções. Os filmes selecionados por eles podem permitir a vivência de situações que levem posteriormente, numa conversa online com os amigos a discutirem as atitudes dos personagens, a evocar situações semelhantes já vivenciadas e a se colocarem no lugar do outro.

Se o espaço físico é restrito, o educador pode criar situações de desafio para o controle motor, equilíbrio, ritmo e favorecer a construção de habilidades físicas em contextos lúdicos. Se os materiais de casa não são os ideais para práticas das artes plásticas, é ainda mais importante o conhecimento dos professores para as propostas diversificadas que permitam as representações ricas e criativas da infância.

Da mesma forma, o processo de alfabetização não deve ser interrompido e o professor deve seguir criando propostas de uso da linguagem escrita que sejam estimulantes e levem as crianças a relacionar a pauta sonora com a pauta gráfica, estabilizar a escrita do nome próprio, brincar de encontrar diferenças e semelhanças em textos variados. Se a escola pode prover a criança desse tipo de estímulo estará garantindo o desenvolvimento cognitivo usando novos recursos, talvez não explorados anteriormente, mas possíveis e necessários agora.

Os familiares, por sua vez, podem propor jogos e explorações das quantidades e suas representações, mas são os educadores infantis aqueles que poderão ainda melhor criar situações problema instigantes que incentivem o raciocínio lógico, que desafiem as contagens e os registros de quantidades em contextos divertidos que garantem as aprendizagens adequadas para cada faixa etária.

As crianças são pequenas, e o uso excessivo da tela não é recomendável, é verdade! Mas este período em casa permite certa flexibilidade, assim é possível que os familiares escolham os melhores horários para as atividades enviadas pelos professores. As atividades menos dirigidas, podem ser realizadas pelos pequenos nos momentos em que os adultos precisam trabalhar, ou se ocupar com os afazeres da casa, mas também se pode reservar um tempinho para aquelas propostas que realmente precisam da nossa mediação.

O importante é que a escola e a família não se furtem de suas responsabilidades: os pequenos precisam de muito mais do que afeto e distração, necessitam de nutrição cultural, desafios físicos, cognitivos e morais.

Afinal, há muito tempo a educação infantil deixou de ser curso preparatório para a escola de verdade, a chamada  “pré-escola”, pois a sociedade reconheceu as necessidades das crianças de 4 e 5 anos de  aprenderem e se apropriarem das ferramentas que ajudam a interpretar o mundo. Não as deixemos sozinhas agora.

1º de abril pode estimular fake news sobre coronavírus. Nesse contexto, Escola da Vila realiza atividades remotas de educação midiática

Alunos do 9º ano do Ensino Fundamental da Escola da Vila estão discutindo papel do jornalismo em meio à pandemia do COVID-19

Muitas notícias falsas relacionadas à pandemia do coronavírus têm circulado nas redes sociais e nos aplicativos de conversa da população mundial. O Dia da Mentira (1º de abril), inclusive, pode reacender a disseminação de fake news a respeito do tema. 

Pensando nesse cenário, a professora de Língua Portuguesa da Escola da Vila, Luiza Moraes, propôs aos seus alunos e alunas do 9º ano do Ensino Fundamental um projeto que pretende discutir e debater o papel do jornalismo no contexto da pandemia de coronavírus. 

“O que está em pauta agora é justamente o papel da imprensa, dos meios de comunicação e das redes sociais na cobertura da pandemia. Por isso, a proposta é que os alunos e alunas leiam artigos de opinião sobre fake news, se informem sobre o coronavírus e debatam entre si”, explica. 

Com a grande quantidade de informações a respeito do coronavírus circulando na internet é preciso ter cautela na disseminação e no consumo das notícias falsas. Por isso, Luiza enxergou nesse contexto a possibilidade de educá-los midiaticamente com um tema atual e relevante. 

“Meus objetivos são que eles vivam isso como leitores, entendendo como podem usar a imprensa para se informar e pensando sobre como a mídia faz a cobertura do tema”, completa a professora.

Ela explica que há muitos anos esse trabalho de educação midiática é feito pela equipe pedagógica da Escola da Vila. Ao longo da trajetória acadêmica, os estudantes do Ensino Fundamental, por exemplo, participam de um projeto de publicidade, analisando peças publicitárias e entendendo sua linguagem de persuasão.

A proposta de educação midiática já é familiar ao corpo estudantil da Vila, mas o cenário de pandemia de 2020 acabou propiciando esse estudo mais aprofundado da cobertura jornalística com base no que os alunos e alunas estão vivendo. Luiza explica que o consumo de informações e notícias confiáveis na internet os ajuda a entender os motivos da quarentena e a situação global atual.

As atividades com a turma estão sendo feitas remotamente, por meio de um ambiente digital. Primeiramente a professora propôs que os alunos selecionassem um vídeo e um podcast com dados confiáveis sobre o Covid-19, resumindo as informações e compartilhando com a turma por meio do sistema online da escola.

Outra atividade que está sendo realizada pelos estudantes é a curadoria de notícias. Todos os dias, eles navegam em sites de notícias da grande imprensa e leem a principal notícia relacionada ao coronavírus naquele momento, fazendo uma base de dados com as informações.

“Neste ano, nosso foco é nas fake news e no papel da imprensa nessa cobertura de crise. O principal objetivo dessa atividade é que os alunos percebam que uma boa argumentação é feita com base em pesquisas científicas, dados coletados e fontes especialistas”, conclui.

Ajudando o Chico!

Em nosso blog hoje, compartilhamos a iniciativa da Madu, ex-aluna da Vila e irmã do Pedro, nosso aluno do Fundamental 2. Ações como essa merecem destaque, pois envolvem a comunidade da escola para além de seus muros em apoio a quem precisa.

Muitas iniciativas solidárias estão surgindo, e essa certamente trará inspiração para outras, em prol da criação de redes de ajuda a quem mais precisa.

Ajudando o Chico!

por Maria Eduarda Lavigne

Estamos passando por um período pelo qual muitos de nós nunca imaginamos passar, um período quando a vida pessoal e a vida em sociedade estão sendo afetadas. Com a epidemia do Corona Vírus (Covid-19), foi recomendado que nós não saíssemos de nossas casas. Os alunos e alunas estudam em casa e muitas pessoas trabalham online também. Há alguns dias, eu vinha pensando nisso e me sentia sensibilizada, por vezes, triste por causa das pessoas que não podem trabalhar de casa e ficar sem o dinheiro do mês, pois passam por muita dificuldade financeira.

Navegando pelo Instagram, vi que o Grêmio Estudantil do Colégio Andrews, minha antiga escola no Rio de Janeiro, tinha aberto uma vaquinha para o pipoqueiro e o vendedor de churros que trabalham na porta da escola. Olhando para a iniciativa deles, me lembrei do Chico.

Como ex-aluna da Escola da Vila, posso contar que Francisco Pamplona, conhecido como Chico, que vende pipoca e doces na frente da escola, sempre foi muito carinhoso com os alunos, sempre muito alegre em trabalhar conosco. Se todos nós nos encontramos em um momento delicado agora, imaginem o Chico, que está sem poder trabalhar.

Compartilhei com minha família minha preocupação e minha mãe me falou sobre um site chamado “Vakinha”, onde se pode arrecadar dinheiro para uma pessoa ou uma causa. Decidimos ligar para o Chico e perguntar o que ele achava dessa ideia. Me emocionou muito a alegria que ele ficou ao contarmos a ideia, a gratidão que ele demonstrou para nós.

Após criarmos uma corrente no WhatsApp, eu e minha família ficamos impressionados com o resultado! Em menos de três dias, já foram arrecadados quase cinco mil reais. É extraordinária a força que as pessoas têm juntas, e é por isso que sinto que precisamos nos unir mais vezes. E a gratidão e a felicidade do Chico não têm valor!

Peço, então, a vocês, que se inspirem na história do Chico e levem isso para suas vidas. Eu agradeço a todos que estão participando e divulgando e agradeço principalmente ao Chico, por ser essa pessoa tão inspiradora e que tem tanto amor pelo que faz.

Manual de convivência na selva do Lar

André Trindade, autor, psicoterapeuta e educador que já veio a Vila muitas e muitas vezes conversar com professores, alunos, alunas e famílias,  gentilmente autorizou a divulgação em nosso blog de um texto muito oportuno sobre o convívio mandatório que estamos vivendo em nossas casas nesse período.

Esperamos que aproveitem a leitura.

Manual de convivência na selva do Lar

Dicas para o convívio entre adultos, bebês, crianças e adolescentes em tempos de reclusão

Por André Trindade 1

A situação de confinamento que estamos vivendo exige inúmeras adaptações e esforços. Proponho aqui alguns caminhos e reflexões.

A organização do tempo

A questão da utilização do tempo atinge todas as famílias. O tempo da escola (pública ou privada) é um tempo cronológico, organizado sequencialmente em rotinas que se repetem. O tempo de casa tende a ser um tempo subjetivo (por mais que os adultos se esforcem para torná-lo objetivo), principalmente quando expandido dessa forma que estamos vivendo. Isso tem um grande impacto na organização psíquica, tanto em nós quanto neles. 

Sugiro que se crie uma tabela de horários em uma cartolina afixada numa parede, ou num quadro negro, à vista de todos. Não adianta escrever em uma caderneta perdida dentro da gaveta. É preciso que todos possam vê-la o tempo todo, pois facilmente nos esquecemos de novos hábitos e regras. A casa deve se transformar em uma espécie de acampamento com a participação de todos.

As refeições

É importante estabelecer os horários das refeições; que se faça ao menos uma refeição em família, que pode ser o jantar, por exemplo. Comer cada um em um momento não é indicado. Comer no quarto ou em frente a uma tela também é contraindicado.

Comer em frente a uma tela é prejudicial à saúde física (mastigação, deglutição, digestão e absorção dos alimentos) e à saúde mental (desfrutar e perceber os sabores, comunicar-se com as pessoas, trocar ideias, olhares, estabelecer cumplicidade em relação ao momento vivido). Essa já é uma regra para a vida normal e ganha ênfase nos tempos de restrição. 

Trabalhos domésticos

Varrer a casa, o quintal, regar plantas, colocar comida para o cachorro, colocar e tirar a mesa, aprender a lavar a louça sem quebrar os pratos (algum há de ser quebrado), arrumar o quarto, preparar um lanche.

A ideia de cooperação é fundamental!

É importante que todos participem (crianças, adultos e adolescentes).

Largar o celular

É preciso que os adultos larguem seus celulares para se comunicarem e interagirem com os filhos. Que silenciem os grupos de WhatsApp. 

É preciso também que crianças e adolescentes desgrudem os olhos das telas. A atitude exemplar do adulto é fundamental. Não funciona a regra: “faça o que eu digo e não faça o que eu faço”. A tabela fixada na parede vai ajudar nos momentos de “desligar-se” dos eletrônicos.

Sobre a arrumação das gavetas

O tempo livre (preso) pode ser um tempo importante para os filhos fazerem uma “limpa” em tudo aquilo que não serve mais: brinquedos, roupas, tralhas em geral. 

– Vai arrumar sua gaveta que eu quero ver depois como ficou, diz o adulto.

Isso não funciona.

Eles vão precisar de ajuda para selecionar os objetos e esse pode se tornar um momento precioso, se encarado simbolicamente como um ritual de transformação, de deixar o que é “velho” para trás e abrir espaço para ser preenchido pelo “novo”.

Nessa seleção deve-se respeitar aquilo que faz sentido para eles e não necessariamente a lógica prática do adulto. Uma criança pode querer guardar uma boneca velha, um coelho de pelúcia que já perdeu as orelhas e o adolescente talvez queira guardar um tênis apertado ou uma blusa em frangalhos. Há uma negociação importante entre a praticidade dos espaços nos armários e prateleiras e os objetos afetivos.

Tempo de presença

Também não adianta esperar das crianças que elas cumpram as propostas sem a ajuda dos adultos:

– Vai se acalmar e volte aqui quando você já estiver equilibrado!

Não funciona.

           – Não tem nada para fazer, diz o filho.

– Vai inventar uma brincadeira e quando acabar conversamos, responde o adulto.

Não funciona. 

A criança e mesmo o adolescente vão precisar da participação inicial do adulto para muitas iniciativas, desde escolher um assunto interessante no YouTube, iniciar uma brincadeira criativa, largar o computador ou se tranquilizar.

Não podemos esquecer que a maioria dessas crianças estavam “terceirizadas” em rotinas nas escolas, nas creches e por agendas completamente preenchidas de atividades extras. Elas não foram preparadas para se autogerirem e para funcionarem sem um constante estímulo externo. 

Será preciso que ganhem autonomia, mas isso não se faz de um dia para o outro.

O tempo dos adultos

Os adultos também precisam de tempos próprios para suas atividades de trabalho, para organizarem-se diante de seus temores, angústias, ansiedades e inseguranças, para os cuidados consigo mesmos e até mesmo para o entretenimento. Sugiro que os “tempos dos adultos” estejam igualmente indicados  na tabela e que os filhos aprendam a não convocar os pais nesses momentos a não ser em casos de urgência.

Muitos adultos manterão suas atividades profissionais desde casa. A criança precisa entender isso.

Mães e pais não são pedagogos de seus filhos e nem devem lhes entreter o tempo todo. Estar com uma criança não significa estar em função dela todo o tempo. Isso pode ser exaustivo e estressar ainda mais a situação.

Brincar eletrônico

O tempo dispendido com os eletrônicos terá que ser submetido a novas regras.  

Há famílias que precisarão flexibilizar o tempo de uso dos eletrônicos. Crianças e adolescentes vão querer jogar mais e se comunicar mais com os amigos virtualmente, e esse se tornou um recurso fundamental nesse momento.  

Porém, para todas as famílias, será fundamental restringir os excessos de uso estabelecendo limites claros. A Organização Mundial de Saúde indica que crianças com menos de dois anos devem ficar longe das telas. Para crianças maiores e adolescentes, o uso dos eletrônicos seria de duas a três horas por dia, incluindo vídeos, filmes, jogos e comunicação nas redes sociais. 

Não podemos esquecer que as atividades pedagógicas ocorrerão virtualmente para muitos alunos. Esse tempo em frente às telas será então ainda mais expandido. 

As redes oferecem uma infinidade de assuntos interessantes a respeito de música, esportes, aventuras; há tutorias diversas, visitas virtuais aos quatro cantos do mundo, séries, etc.

Nas redes há igualmente temas sombrios e perigosos. Essa será uma boa oportunidade de assistir junto com os filhos aos vídeos que tanto os atraem e discutir com eles os diversos conteúdos.

Brincar livre

Brincar livre, longe das telas deve ocupar cerca de duas horas do dia das crianças, divididas entre manhã (1 hora) e tarde (1 hora).

Uma mãe me contou que seu primeiro impulso diante da restrição de circulação foi o de correr para a livraria e para a papelaria para munir seus filhos de atividades manuais e leituras. Correu também até a loja de brinquedos escolhendo alguns itens novos que pudessem entretê-los. Disse-me que sua casa estava bem suprida de alimentos e remédios. 

Mas o que é o brincar livre?

Desenhar, pintar, recortar, colar, montar álbuns de fotos (quem ainda tem fotos impressas?), produzir massinhas (farinha e agua, papel machê), modelar, construir coisas a partir de sucatas, escrever histórias em quadrinhos, montar peças de teatro.

Brincar de faz de conta, com bonecos, com bonecas, fantasiar-se, construir cabanas, reinos e castelos com almofadas, construir bonecos com meias velhas, com palitos de sorvete. Fazer dobraduras com papel. Construir bijuterias com missangas. Aprender a fazer tricô, bordar. Redescobrir velhos jogos e brinquedos e “re-brincar”.

Jogar cartas (uno, baralho), jogos de tabuleiro, xadrez, damas, jogo da velha, forca, stop.

Aprender a cozinhar (com ajuda do adulto).

Adaptações no espaço da casa

É importante que alguns espaços da casa estejam preparados para essa situação emergencial. Se não há um espaço próprio de brincadeiras, proponho que os enfeites delicados, vasos e outros objetos de decoração sejam retirados da sala e guardados em locais seguros até que a vida volte ao normal.

As crianças terão que se adaptar a brincar corporalmente nos espaços internos dos apartamentos (muitas vezes “apertamento”). Uma dica é substituir a bola de futebol ou a de tênis por bexigas infladas com ar ou por bolas muito leves de isopor ou espuma. 

Sorte daquelas crianças que têm um quintal ou um jardim privado em suas casas. Sorte das crianças que têm uma casa para morar.

Possivelmente as áreas de lazer dos edifícios serão fechadas assim como os parques e os clubes e as praias vem sendo. Brinquedos públicos, nem pensar!

Com toda essa restrição, vai haver energia física acumulada e as atividades terão que ser adaptadas. Vale aí o futebol no corredor, o frescobol na lavanderia, o basquete de bolas de papel no lixinho.

Dançar, ouvir música, dançar.

Pular corda, brincar de esconde-esconde, apostar corrida no corredor dos quartos… isso tudo em tempo determinado da tabela, em coordenação com o tempo de todos, para que as atividades agitadas não interfiram nas atividades que exigem concentração.

O tempo da leitura

O tempo da leitura pode estar incluído no brincar livre, pois a leitura deve ter um caráter lúdico. Os temas devem ser escolhidos (com a ajuda do adulto) por cada um. Histórias em quadrinho e livros novos podem ser lidos assim como os velhos, relidos. 

É interessante separar um tempo próprio para a leitura. Fica difícil manter a concentração na leitura enquanto o irmão joga bola freneticamente no corredor.

Convivência entre irmãos e com os amigos

A competição, as rivalidades, as brigas têm fortes chances de serem acirradas pelo tempo de confinamento conjunto. Há também a possibilidade da convivência harmônica, mas essa dependerá da delimitação do espaço e do tempo de cada um.

Normalmente acontece uma disputa pelo melhor televisor, pelo computador ou por algum brinquedo comum a todos. Há um pensamento por parte de muitas famílias de que os filhos precisam aprender a “dividir” as posses e que as escolhas sejam feitas por meio de votações ou por outro tipo de sorteio, nos quais, frequentemente, alguns se sentem injustiçados e ninguém fica de fato feliz.

Acho bom determinar um momento para cada filho: 

Das 16h às 16h45, TV da sala para Maria.

Das 16h45 às 17h30, TV da sala para José.

Das 17h30 às 18h15, TV da sala para Pedro.

A partir das 18h15, dos adultos.

Alternam-se os dias da semana e os horários, mas as escolhas serão sempre determinadas na tabela.

Sobre os amigos, por um bom tempo terão que estar separados do contato presencial. Embora muitas famílias ainda estejam recebendo os amiguinhos dos filhos em casa, essa não é a recomendação.

O tempo do adolescente

Se a adolescência representa o desejo de questionar os padrões familiares estabelecidos, de ir em busca de grupos de semelhantes, de ganhar algum tipo de autonomia em relação aos adultos, voltar para o confinamento na casa, longe dos amigos, pode ser muito mais difícil para eles do que para os menores.

Os enfrentamentos e o oposicionismo devem aumentar nesse período, e o que eu sugiro é que os pais possam ouvir suas opiniões mesmo que pareçam sem sentido ou desproporcionais. Que os convoquem para as conversas dos adultos, discussões dos temas atuais, como as preocupações em relação à economia, à saúde de todos e em especial à dos mais velhos, à solidariedade, à coletividade, enfim, inclui-los nas discussões como “gente grande”.

Os adolescentes devem ser incluídos na tabela de distribuição de tarefas e horários, senão correm o risco de trocar o dia pele noite e passar o dia de pijamas, e isso não é bom para ninguém. É importante também respeitar os tempos em que ficam fechados em seus quartos, isolados do grupo e negociar com eles os períodos de convivência necessários.

O tempo da escola

Há uma grande expectativa para saber como será a escola a distância. Tudo é muito novo para as crianças e para os professores. Além disso cada escola está construindo uma pedagogia própria. Temos que acompanhar o andamento dessas propostas. As crianças têm uma grande capacidade de adaptação e intimidade com as tecnologias da informação. Temo mais pelos professores. 

Sabemos que as escolas públicas não contam com recursos para a educação a distância e provavelmente o período de reclusão será convertido em recesso, sem atividades pedagógicas.

O medo

O medo irá se intensificar à medida em que as mortes forem ocorrendo. Por enquanto, observo a preocupação em relação aos avós e bisavós, mas a tensão pode aumentar, e muito. A TV ligada o dia inteiro com noticiários não ajuda. Conversar com as crianças sobre seus medos e preocupações pode ajudar. 

Jogo e higiene

Um cartaz com as medidas de higiene e precauções pode ser fabricado em conjunto com as crianças e ser fixado junto ao dos horários.

Contato físico é possível?

Para crianças e bebês, o colo, o carinho e o contato físico com o adulto cuidador propiciam trocas de afetos e constituem instrumentos eficazes para aplacar os medos e as angústias dos pequenos. Infelizmente teremos que tomar alguns cuidados nesse sentido.

Estudos recentes sobre a transmissão do coronavírus indicam que a forma mais importante de transmissão se dá diretamente através das mucosas. Quando falamos com alguém sem guardar a devida distância (dois metros e meio), há a chance de trocas de salivas pelo lançamento de gotículas entre uma pessoa e outra. Essa chance aumenta enormemente nos espirros e nas tosses. Essas secreções também podem ser transmitidas por meio de superfícies, porém dentro de casa tem-se maior controle sobre a higienização dos ambientes e dos objetos manipulados.

Por mais difícil que seja, os idosos devem estar isolados do contato com as crianças.

No convívio entre mães, pais e filhos, mesmo não apresentando sintomas e estando devidamente higienizados, não deveríamos falar pertinho um do outro e deveríamos evitar os beijos na face. Ler histórias na hora de dormir pode acontecer com o adulto sentado na ponta da cama, próximo aos pés da criança, e aí pode acontecer uma massagem relaxante nos pés.

Sobre os bebês que estão sendo amamentados por aleitamento materno, o Departamento Científico de Aleitamento Materno (DCAM) da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) se posicionou (13/3/2020) favorável à amamentação em mães portadoras do Covid-19, caso seja o desejo delas. Os principais artigos sobre o tema indicam que os benefícios da amamentação são superiores aos riscos de transmissão do novo vírus, assim como ocorre em diversas outras viroses.

Para todos aqueles com sintomas de gripe, o uso de máscaras é recomendado assim como todas as medidas preventivas acima citadas.

Com a velocidade das informações chegando a todo momento, as adaptações e as sugestões vão se transformando. Por enquanto tratamos daquilo que conseguimos enxergar hoje. Que todos fiquem bem! Cuidem-se! Abraço virtual,

André


E-mail: atrindade.tria@gmail.com

Site: www.andretrindade.net.br

1André Trindade é autor, psicoterapeuta e educador. Atua em consultório e oferece palestras e cursos para pais e educadores. Seu primeiro livro “Gestos de cuidado, gestos de amor” trata do desenvolvimento do bebê ao longo dos três primeiros anos de vida. “Mapas do corpo”, seu segundo livro publicado, segue a mesma linha de orientações e reflexões sobre a infância e a adolescência.

Crianças em casa. E agora?

Por Dayane Moura Monteiro e Natalia da Cruz, professoras da Educação Infantil

“Só há um modo de escapar de um lugar: é sairmos de nós. Só há um modo de sairmos de nós: é amarmos alguém.” — Mia Couto, A Confissão da Leoa.

A pandemia do novo coronavírus nos colocou frente a uma situação inusitada: o isolamento social. O contato, algo que prezamos tanto em nossas relações com as crianças, teve que ser interrompido diante de um cenário que busca minimizar os impactos desse vírus em nossa sociedade. Tivemos que encontrar uma nova maneira de comunicação, que preserve o vínculo com nossos pequenos, respeitando principalmente a infância e as formas genuínas das crianças se comunicarem e se relacionarem.

As crianças são inteiras em suas vivências no mundo e precisamos pensar em como possibilitar suas explorações nesse novo contexto, com limite de espaço e de interação. Na escola prezamos pela construção de uma rotina que garanta estabilidade no dia a dia delas, propiciando autonomia e segurança emocional para que a investigação e a construção do conhecimento aconteçam de maneira significativa. Diante disso, consideramos também importante preservá-la em outros contextos da vida de nossos pequenos, como a sua própria casa.

Começamos desde a semana passada a enviar propostas de atividades para serem feitas em família, mantendo valores tão caros para nosso projeto pedagógico, como o brincar, a literatura, o fazer artístico… Para além dessas propostas, esse momento se torna oportuno para que as crianças participem de outras tarefas em casa, tomando para si a responsabilidade pelo ambiente no qual fazem parte, o que também acontece quando estão na escola.

Perceber-se útil nas atividades rotineiras, que fazem a casa funcionar, dá para as crianças um lugar de pertencimento e de confiança que mostram o que significa ser um membro da família, que acreditamos em seu potencial e que apostamos na autonomia delas diante dos desafios que possam surgir.

Mas em que podemos envolvê-los? Que tal iniciar essa conversa convidando-as a pensarem como podem ajudar em casa? Juntos, a partir das ideias que surgirem, vocês podem trilhar um caminho que será percorrido ao longo desse período. Para inspirá-los, criamos uma lista de propostas com base no que as crianças já são convocadas a fazer na escola:

  • organizar seu material: armário, cama, brinquedos e materiais que serão usados para as propostas da escola;
  • ajudar nas tarefas domésticas: lavar louça, separar a roupa suja, tirar o lixo da casa;
  • aprender coisas novas: aprender uma nova receita, costurar aquela meia furada, bordar, consertar um brinquedo, plantar uma nova mudinha (pode ser de feijão, de alecrim, cebolinha);
  • cuidar dos membros da casa e da vida: alimentar os bichos de estimação, regar as plantas, dar banho nos cachorros nesses dias quentes, preparar o café da manhã dos irmãos ou da mãe e do pai, mandar mensagens de vídeo para os avós, tios e familiares que estão distantes, fazer desenhos para os vizinhos do prédio, manter o contato com os amigos;
  • construir um diário de “bordo”: nossa casa agora é nossa “nave”! Como podemos registrar este momento? Além do que vamos sugerir como registro frequente para as propostas vindas da Escola, escolha um jeito de registrar o dia a dia de vocês, em casa – diários escritos (com trechos ditados pelas crianças, fotos e legendas ou um aplicativo que faça este registro virtualmente);     
  • organizar um mural com símbolos: que representem as atividades sugeridas e os horários indicados para fazê-las com ou sem apoio de um adulto. A regularidade desta organização garantirá que as próprias crianças comecem a se dar conta de que a rotina pode acontecer sem que alguém precise nos lembrar de tudo.

          Tudo o que estamos vivendo é novo, e com a novidade surgem incertezas. Para amenizar esse novo cenário, vamos nos cercar de momentos significativos ao lado de nossas famílias, mesmo que a comunicação nessa fase precise ser virtual. Torne esse período de maior proximidade com as crianças o mais verdadeiro possível, certamente vocês criarão memórias que vão trazer mais sentido ao valor de se viver em comunidade, ser solidário e respeitar o bem comum. Daqui, torcemos para que as boas notícias cheguem logo e possamos nos fortalecer nos abraços e afagos, que são tão valiosos para todos nós.

Atividades com as crianças em casa em tempos de coronavírus

Como é bom ter amigos virtuais! Nossa colega argentina Melina Furman nos brindou com esse artigo e gentilmente autorizou sua publicação em nosso blog. Em tempos de coronavírus, podemos experimentar muitas das dicas compartilhadas.  Boa leitura!

Atividades com as crianças em casa em tempos de coronavírus

Por Melina Furman, bióloga da Universidade de Buenos Aires e Dra. em Educação pela Universidade de Columbia, EUA

Artigo publicado no El Baikal em 16/3/2020.

Estamos em tempos de pandemia, que obrigam muitos de nós a ficar em casa porque as aulas estão suspensas, ou porque a família está em quarentena, ou porque decidimos nos “guardar” por alguns dias. É um momento de incerteza, em que a nossa vida cotidiana muda e temos que nos adaptar ao cenário de estarmos todos (inclusive crianças) em casa enquanto esperamos que a onda de contágio passe e, em breve, esperamos, as coisas voltem ao normal.

É aí que surge a pergunta que não quer calar: o que podemos fazer com as crianças em casa? Como aproveitar esse tempo para gerar oportunidades de aprender e compartilhar em família?

Uma ideia que pode nos ajudar a pensar em atividades para fazer com as crianças (especialmente quando não conseguimos pensar em mais nada!) é a das inteligências múltiplas. Nos anos 80, o psicólogo Howard Gardner introduziu um conceito que revolucionou a própria noção de “inteligência”. Ao analisar casos de “gênios” (pessoas com talentos muito exacerbados, como os prodígios musicais, matemáticos ou literários), estudar os efeitos de lesões cerebrais sobre certas capacidades específicas e comparar os registros de desenvolvimento cognitivo de populações em todo o mundo, ele postulou a existência de diferentes tipos de inteligência.

Pensando na educação das crianças, um dos aspectos mais importantes dessa teoria é a possibilidade de conceber a inteligência não como uma “coisa”, mas sim como um repertório, um leque de capacidades que vale a pena nutrir. Assim, Gardner identificou oito inteligências diferentes:

  • Lógico-matemática: é a capacidade de resolver cálculos, problemas abstratos e jogos de estratégia, analisar variáveis, raciocinar de maneira lógica e identificar padrões numéricos;
  • Linguística: implica a capacidade de estabelecer comunicação em diferentes formatos baseado na linguagem verbal: ler, escrever, debater e compreender o que o interlocutor está dizendo;
  • Musical: é a capacidade de interagir com instrumentos ou modos de produzir som em geral e de criar e interpretar música;
  • Cinético-corporal: refere-se à capacidade de usar o próprio corpo para resolver problemas (por exemplo, chutar uma bola em direção ao gol) ou para expressar sentimentos (por exemplo, dançar);
  • Espacial: é a capacidade de entender e pensar sobre o espaço por meio de imagens. Usamos essa inteligência quando nos orientamos ou interpretamos um mapa, quando visualizamos um objeto de diferentes ângulos e quando montamos quebra-cabeças;
  • Naturalista: empregamos esse tipo de inteligência quando observamos a natureza ou os elementos à nossa volta. Gardner especula que esse tipo de inteligência surgiu nos primórdios da humanidade, da necessidade dos caçadores-coletores de identificar padrões e mudanças no ambiente. Trata-se da capacidade de perceber as relações que existem entre várias espécies ou grupos de objetos e pessoas, por meio da identificação de padrões, semelhanças e diferenças, e da elaboração de classificações;
  • Intrapessoal: implica a capacidade de nos conhecermos de maneira profunda, de modo que nos compreendamos e orientemos nosso próprio comportamento. Uma pessoa com alta inteligência intrapessoal tem um modelo de si que lhe permite trabalhar com suas próprias emoções e interagir de maneira positiva com seu entorno. Essa inteligência se relaciona com a capacidade de planejar e alcançar metas relevantes, avaliar pontos fortes e limitações pessoais, controlar os impulsos ou persistir apesar das frustrações; e
  • Interpessoal: envolve a capacidade de ler as emoções dos demais e interagir com outras pessoas de modo produtivo. Está vinculada à habilidade de cooperar com outros, de “colocar-se no lugar do outro”, de interpretar os desejos e as necessidades dos demais e de liderar um grupo.

Muitos especialistas debatem com fervor sobre o número de inteligências diferentes que Gardner identificou. São realmente oito? Existem sobreposições entre elas? Não estamos nos esquecendo de outras inteligências importantes? Existe alguma inteligência mais ampla que se sobrepõe a várias das anteriores?

Quando se trata de encontrar o que fazer com as crianças em casa, e também no meu papel de educadora e de mãe, não faz muita diferença se são oito, onze ou quarenta e três. Neste caso, não estamos trabalhando com a ideia de inteligências sob o ponto de vista da ciência cognitiva. A maior qualidade do conceito de inteligências múltiplas é que ele traz à baila o valor de outros tipos de talentos extremamente relevantes para a vida que sempre foram considerados “menores” sob a perspectiva da tradição acadêmica pura.

A seguir, proponho algumas estratégias para trabalhar as diferentes inteligências em família (que, obviamente, variam de acordo com a idade das crianças), que estão no meu livro “Guía para criar hijos curiosos” (Siglo XXI Editores, ainda sem edição no Brasil). 

  • Lógico-matemática: jogar jogos de mesa que envolvam lógica ou cálculo mental, como dominó, escopa ou xadrez. Medir os objetos da casa de diferentes modos (pesar, medir o comprimento com diversos instrumentos). Resolver desafios matemáticos. Criar e depois decifrar um código secreto. Aprender a programar com plataformas como Scratch Junior ou Lightbot. Fazer cálculos mentais em situações do dia-a-dia (quando pensamos, por exemplo, no que temos e no que nos falta, ou em como repartir o que temos entre várias pessoas). Fazer experimentos para responder perguntas e analisar os resultados;
  • Linguística: inventar histórias curtas entre várias pessoas, como no jogo “cadáver esquisito”. Escrever cartas (ou emails!) para pessoas que vivem longe. Escutar ou ler contos e depois conversar sobre a história. Buscar novas informações na internet ou em livros sobre algo que apareceu na história para continuar explorando o tema. Criar e escrever as instruções de um jogo ou de uma brincadeira. Brincar com letras e palavras em jogos como Scrabble. Escrever uma música, um poema ou um rap sobre algum tema. Escrever as pistas de uma caça ao tesouro para outras pessoas acharem (por exemplo, as crianças escrevem as instruções para os adultos);
  • Musical: inventar músicas, cantar juntos, encontrar os instrumentos “escondidos” em uma música. Gravar-se com o celular cantando e depois escutar. Inventar formas de acompanhar uma música fazendo percussão com o corpo ou com outros objetos. Brincar com ritmos diferentes, tocar um instrumento, criar uma melodia para um poema, musicalizar uma história;
  • Cinético-corporal: dançar, criar coreografias, seguir sequências de movimentos com o corpo. Praticar a motricidade fina com brincadeiras como espetar objetos com palitos. Brincar de mímica;
  • Espacial: construir com blocos ou materiais reciclados. Usar massinha ou argila para esculpir objetos. Representar situações por meio de imagens ou esquemas. Fazer brincadeiras de orientação como “cabra-cega”. Conduzir alguém com os olhos vendados de uma ponta a outra da casa dando-lhe instruções de movimento. Desenhar e ler mapas que levem a um “tesouro” escondido em casa;
  • Naturalista: observar e cuidar de seres vivos (mascotes, plantas). Registrar como crescem ao longo do tempo e criar um diário para anotar os resultados. Coletar elementos da natureza (folhas, bichos, pedras) para desenhá-los ou classificá-los e montar um álbum ou uma coleção. Buscar padrões nos objetos (por exemplo: “o que todos esses insetos têm em comum?”);
  • Intrapessoal: escrever ideias e sentimentos em um diário. Fazer uma cápsula do tempo para as crianças guardarem objetos que são importantes para elas e cartas que elas escreverem para elas mesmas, para voltar a abrir em alguns anos. Tirar fotos de coisas que chamem a atenção e comentar depois. Criar um plano para aprender algo novo. Fazer uma lista das coisas que queremos fazer naquele dia (para aprender a organizar o tempo); e
  • Interpessoal: fazer brincadeiras que exijam colaborar com outros, como corridas de saco e construções em grupo. Conversar sobre como as coisas funcionaram em grupo e por que elas foram bem ou o que se poderia fazer para melhorar as que não saíram tão bem. Ensinar algo que sabemos a outra pessoa (por exemplo, gravando um tutorial em vídeo). Planejar um “acampamento” dentro de casa (por exemplo, armando uma tenda caseira com mantas e cadeiras) e fazer uma lista de coisas que todos queremos levar.

Espero que essa lista anterior os ajude a despertar ideias (e a identificar coisas que vocês já fazem)! Seguramente vocês descobrirão muitas outras atividades que valem a pena compartilhar com os filhos. Nesses anos de trabalho com pais sempre me surpreendo e me maravilho com a criatividade que todas as famílias têm.

Ficar em casa pode nos dar uma oportunidade impensada de nos conectarmos com nossos filhos: passar tempo juntos sem pressa, brincar por brincar e conversar por conversar. Não precisamos desenvolver ideias sofisticadas. Trata-se, nada mais, nada menos, de nos encontrarmos e desfrutarmos mutuamente da nossa companhia.

Cuidar de um para cuidar de todos

Por Fernanda Flores, direção pedagógica

Estamos em meio a uma situação que não víamos há anos, muitos de nossos alunos e alunas nem estavam na escola no ano de 2009, quando vivemos algo parecido com a chegada do vírus H1N1 no Brasil.

Surtos de doenças infectocontagiosas, como a COVID-19, geram especulações e é fácil sentir-se confuso com a onda de notícias e informações desencontradas, enfim, isso costuma trazer insegurança e pode gerar ansiedade. Famílias e equipes nas escolas devem ser cautelosas com as informações que fornecem para não assustar as crianças e jovens ou criar temores desnecessários.

Toda essa movimentação requer calma e a instauração de um clima de entendimento de que essa suspensão na vida da escola, por exemplo, é uma resposta coletiva para um surto que tem uma velocidade de propagação elevada.

É importante que as crianças escutem de nós que é esperado sentir-se com medo. E, nesses momentos, precisamos ocupar um espaço importantíssimo de escuta, acolhimento das dúvidas e receios, com a afirmação segura de que juntos passaremos por esse período.

Assim, para crianças e jovens é importante permitir que conheçam os fatos com explicações claras e francas. É oportuno destacar o papel da ciência nesse momento, ressaltar o quanto os médicos e cientistas estão trabalhando para que tudo seja resolvido e para que logo tenhamos uma vacina que proteja as pessoas.

Evidentemente, a idade das crianças faz muita diferença, e adaptar a fala é algo que precisa ser feito, com paciência para conversar e esclarecer muitas perguntas e assim, fazer com que sintam-se mais seguras e calmas.

No entanto, é nossa responsabilidade limitar a exposição e motivar as conversas em família. Dessa forma, crianças e jovens têm um espaço seguro e aberto para falar sobre notícias, esclarecendo dados e tirando dúvidas.

É muito importante eles ouvirem dos adultos de confiança que estão seguros ficando em suas casas por esse tempo e que é normal estarem preocupados com a situação, pois também nos sensibilizamos com quem não conhecemos. E isso se aprende vivendo esse momento.

Ver os adultos conversando sobre o tema, podendo fazer perguntas para entender por que a mãe está tão preocupada com seus avós, por exemplo, ajuda as crianças a entender seus próprios sentimentos e ensina o valor da empatia e solidariedade.

Como parte das medidas preventivas, é oportuno reforçar os cuidados pessoais, acompanhando e orientando as crianças e jovens a lavar as mãos depois de tossir, espirrar, antes e depois de comer e depois de usar o banheiro. Tratar da etiqueta respiratória, de espirrar nas curvas dos cotovelos e evitar tocar o rosto, posto que o vírus acessa o corpo pela boca, nariz e olhos.

Em relação aos jovens, recomendamos fortemente o podcast da psicóloga Lídia Aratangy, que pode ser ouvido aqui. Em linhas gerais a mensagem central é que se oportunize junto aos adolescentes a reflexão sobre a responsabilidade coletiva com o outro, que cuidar-se nesse momento é um ato de solidariedade para aqueles que compõem grupos de risco e aos que não dispõem do mesmo acesso ao sistema de saúde.

A mensagem vale para nós, leitores deste blog, o momento é de restrição pelo bem comum e assim, aprendemos juntos, coletivamente, que cuidar de cada um é cuidar de todos.

Quintal da Vila, a Escola da Vila para crianças bem pequenas!

Por Fernanda Flores, direção pedagógica

E começamos!

Nestes primeiros dias de fevereiro inauguramos com nossas famílias e equipe os novos espaços de atendimento para crianças a partir de 1 ano. Sair da projeção, das ideias e dos sonhos para a prática demandou bastante energia de muitas pessoas. Foi o que aconteceu e se traduziu em ambientes muito especiais, abertos, invadidos pela natureza e sua luz, espaços de escolhas e de acolhimento. Tudo pensado para as conquistas tão essenciais desse período da vida.

Vejam alguns dos registros que captamos destes primeiros dias.

Entregar-se ao novo em nosso Quintal tem sido como uma bela dança onde ceder e recuar fazem parte de um processo de encantamento singular quando tratamos de ocupar um novo lugar na vida de crianças bem pequenas e de suas famílias.

Ontem tive o privilégio de acompanhar uma professora dando banho em uma criança enquanto os demais tiravam a costumeira soneca da tarde. Foram minutos de uma intensa aprendizagem, sobre a delicadeza dos gestos, das palavras e sobretudo da escuta e do brincar que estava em curso.

Momentos como esse fazem do Quintal um ambiente muito especial para as vivências e conquistas da infância.