Investigação científica na Vila segue durante a quarentena

No estudo sobre as estações do ano, alunos e alunas trocaram ideias e formularam hipóteses por meio de fóruns virtuais; construção de um geódromo caseiro possibilitou testes e conclusões.

Na Escola da Vila, as aulas de ciências acontecem a partir de uma perspectiva investigativa, em que a ideia é se aproximar do processo de construção do conhecimento científico. Isso significa que a construção do conhecimento está relacionada à formulação de hipóteses, testes, observação de resultados e organização das informações para se chegar a uma conclusão. Mesmo durante a quarentena, a escola tem conseguido trabalhar assim, como ocorreu no estudo dos 6ºs anos sobre as estações do ano, feito inteiramente a distância.

“Esse tema contempla dois aspectos muito importantes da investigação científica, a elaboração e o teste de hipóteses. Para isso, fizemos um esforço grande para manter as principais propostas, mesmo com os professores distantes fisicamente dos estudantes nesse momento”, diz Ana Carolina de Oliveira Luna, professora de ciências naturais dos 6ºs anos, na unidade Butantã.

Ela explica que, sobre esse assunto, as estações do ano, os alunos costumam ter muitas informações. Eles sabem, por exemplo, que o inverno é frio e mais seco, que o verão é quente e chuvoso, e que quando é inverno no Brasil é verão em países mais ao Norte e vice-versa. “Os estudantes também têm hipóteses para explicar como acontecem as estações do ano, e é comum que as informações que têm e as hipóteses pessoais sejam muitas vezes contraditórias, e eles não se deem conta disso sozinhos.”

O processo de trabalho investigativo, segundo a professora, também prevê oferecer ferramentas para ajudar alunos e alunas a pensarem e a organizarem as ideias para construir o conhecimento. Uma dessas ferramentas são validação e apresentação de novas informações — por exemplo, o fato de existir duas estações no ano simultaneamente, uma no Hemisfério Norte e outra no Hemisfério Sul. Elas vão se contrapor ou colaborar para que uma determinada hipótese se fortaleça ou deixe de fazer sentido.

Outro instrumento importante na trajetória investigativa é a possibilidade dos estudantes interagirem entre si para trocar percepções. Eles discutem em pequenos grupos e depois compartilham impressões com outros colegas. “Durante a quarentena, ao longo de três semanas, usamos o fórum do ambiente virtual de aprendizagem (AVA) para isso. Os grupos discutiram as hipóteses que apareciam e, paralelamente, iam recebendo novas informações e lendo textos para defender ou refutar ideias e refinar a discussão”, relata Ana Carolina.

Para testar as hipóteses que tiveram maior consenso, a proposta era que os alunos e alunas usassem um geódromo, modelo que permite a simulação do movimento de translação da Terra e a observação das consequências desse movimento considerando também a inclinação do eixo de rotação do planeta em torno do Sol. Normalmente, eles utilizam esse instrumento coletivamente no laboratório da escola e também nas aulas. “Em casa, a distância, pensamos na possibilidade de propor a construção de um geódromo, com o material que eles tivessem disponível”, conta a professora.

Ela então explicou a ideia para os estudantes, mostrou como construiu o seu geódromo, e cada um fez o seu usando diferentes materiais. A educadora avalia positivamente a experiência, pois conseguiu manter a proposta investigativa, e os alunos testaram hipóteses e chegaram a explicações que faziam sentido e conseguiram apresentar suas conclusões usando o modelo. 

“A construção do geódromo mobilizou os alunos e alunas e proporcionou um vínculo maior com o estudo a distância. Nos encontros online, eles pegavam o geódromo para demonstrar o que estavam falando, e essa é a principal função do modelo. Considero que os resultados foram muito interessantes e criativos e, de fato, nos possibilitou boas discussões”, finaliza a professora.

E você? Conhece a bruxa Quarentina?

Muitos certamente vão gostar de conhecê-la por meio da narrativa de Roberta, mãe da Vila, que compartilha sua experiência, ao estar mais perto do que nunca das propostas escolares realizadas por sua filha.

Durante essas 8 semanas, aprendemos a conversar pelas janelas que temos e, corajosamente, reunimos esforços e nos apropriamos de recursos para sustentar a educação remota, pudemos pensar juntos, dialogar e reafirmar uma educação fundada nos princípios da Vila, com convicção das nossas escolhas.

Isso transparece no relato de Roberta: o valor da autonomia na produção infantil, a cooperação na construção dos personagens, o conhecimento sendo construído colaborativamente e a diversidade valorizada.

Daremos uma parada nas atividades da escola por duas semanas, férias em quarentena para um respiro neste contexto bastante estranho no qual nos encontramos. Mas é um presente receber esse texto neste momento.

Aproveitem a leitura!

Crônicas de uma família em quarentena

Escola da Vila
Ilustração de Fernanda Martins – 2 ano B

Lidando com bruxas

Por Roberta Martins

Vocês conhecem uma bruxa chamada Quarentina? Ela apareceu aqui em casa, num desses mais de quarenta dias em que estamos em isolamento social. Ela chegou de surpresa, vestindo suas roupas escuras, com mangas compridas azul-marinho; vinha de uma floresta não muito distante e trazia um de seus animais de estimação: uma pantera negra que se transformava em uma fênix reversa. Junto com ela vieram algumas outras: a Maldi, a Osvalda… Cada uma com suas características tão peculiares à imaginação das crianças. Claro, elas são fruto da imaginação, vocês não estavam achando que eu realmente havia me deparado com uma bruxa no meio da sala, num desses longos dias em que não podemos sair de casa, não é? (se eu fizesse uma afirmação desta, logo, logo, alguém viria me buscar, achando que fiquei maluca…).

Elas surgiram de um projeto escolar, que, mesmo com distanciamento social, pode se concretizar. Não tenho dúvidas de que o projeto dentro da sala de aula, seria maravilhoso, porém, eu não estaria lá para vê-lo desenrolar… essa é uma das coisas boas que me aconteceram na quarentena! Pude participar da criação da bruxa da minha filha, que, aliás, não aceitou nenhuma das minhas ideias, e depois, das ricas discussões entre os 5 alunos e a professora, que ocorrem uma vez por semana através de um ambiente virtual. Quanta criatividade! Estão juntos, compilando as ideias e elaborando um texto único, em que a bruxa é a protagonista.

A princípio, pareceu que estaríamos de férias. Primeiro, foi a correria para nos abastecer, levar tudo o que poderíamos precisar para dentro de casa, onde ficaríamos trancafiados por sabe-se lá quanto tempo. Em seguida começaram a surgir as várias opções do que fazer durante este tempo (que parecia tanto!), cursos gratuitos, infinitas lives, contações de histórias, viagens virtuais… Num piscar de olhos nos demos conta de que o tempo não seria suficiente para todas estas vontades. A promessa de sentarmos juntos para um jogo de tabuleiro, para compartilhar uma leitura, para uma aula de ioga, foi ficando para depois de preparar o jantar, limpar a casa, participar de uma reunião on-line ou passar a roupa. E como, quando e de que forma ainda conseguiríamos encaixar o tempo de acompanhar as atividades da escola que não paravam de chegar?

Foram dias de muito aprendizado. Aprendemos que não dava para dormir até mais tarde (só um pouquinho…). Precisávamos de organização. Saber priorizar as atividades e se necessário saber deixar alguma para outro dia. Ouvir as necessidades do outro e contemplar cada um. Ter paciência para ensinar e estar disposto a delegar.

Foi assim que as atividades da escola, que precisavam da ajuda para acessar o ambiente virtual, separar os materiais e escrever de volta no fórum, passaram a ser rotina, e ela, com seus sete anos, aprendeu a fazer sozinha. Ainda precisa ser lembrada da hora do encontro síncrono, mas, faz todo o trabalho com independência (ah, e com prazer!). Tem dia, que não se tem vontade de fazer isso ou aquilo, e, isso é compreensível. Tem atividades que não gostamos, e podemos conversar sobre a importância de fazer assim mesmo, ou de decidir não fazer. O importante, é que estamos todos aprendendo.

Estamos ansiosos pelo fim do isolamento. Sentimos saudades de tanta gente! Que vontade de abraçar a vovó… Mas, dentro de mim, surgiu uma pergunta que não quer calar: Como será quando tudo isso acabar?

Na educação remota, ensino também deve considerar a diversidade

Escola da Vila

Equipe pedagógica da Escola da Vila propõe atividades diversificadas para contemplar as diferenças entre alunos e alunas; algumas estratégias serão incorporadas após a quarentena.

Durante a quarenta, a Escola da Vila tem utilizado a educação remota para dar continuidade a suas atividades pedagógicas. Assim como acontece nas aulas presenciais, o trabalho considera as diferenças entre os estudantes e segue feito de acordo com as necessidades de cada um, com ajustes nos materiais, estratégias de ensino, objetivos e conteúdos, sempre que necessário.

“A Vila tem quatro grandes valores que sustentam o seu projeto pedagógico. Além do conhecimento, autonomia e cooperação, há também a diversidade. Partimos da premissa que os alunos e alunas são diferentes e que o ensino nunca deve ser igual para todos”, diz Marília Costa, diretora da unidade da Granja Viana. “Isso vale tanto para a educação remota quanto para a presencial.”

As atividades para os estudantes têm sido postadas no ambiente virtual de aprendizagem (AVA), que já era usado antes da quarentena pelas turmas a partir do 6º ano. As lições específicas para os alunos que têm alguma dificuldade também são colocadas nessa plataforma, com os ajustes necessários. Elas são direcionadas para um grupo ou pessoa, de modo que cada estudante visualiza no AVA o que foi planejado para ele.

Para apoiar o aluno no ensino remoto, a equipe de orientação e os professores estão ainda mais próximos desses estudantes. “Eles telefonam, fazem videoconferência e atendimento individualizado. Já tínhamos essa proximidade no presencial, e ela se intensificou ainda mais no remoto”, conta a diretora. “Contamos com profissionais de apoio, como professores auxiliares e assistentes de orientação, para dar suporte aos professores nas atividades com esses alunos”.

No Ensino Fundamental II, uma dessas uma dessas estratégias para contemplar as diferenças entre os estudantes foi incluir nos enunciados dos exercícios a versão em áudio. “Além de ajudar os alunos e alunas com dificuldade na leitura, por exemplo, essa explicação a mais facilitou o entendimento de todos os outros”, explica Marília. O fórum de dúvidas, além da versão escrita, também passou a ter uma versão em áudio, que permite que o estudante grave a sua dúvida e o professor grave a resposta.

Instruções verbais sobre as atividades também foram enviadas às turmas do Fundamental I, em vídeos ou arquivos de áudio. Isso permitiu maior autonomia para as crianças fazerem as lições, sem recorrer tanto às famílias. A diretora destaca ainda que alguns alunos que tinham dificuldade de expressão no presencial conseguiram se comunicar melhor remotamente, o que abre a possibilidade para outras maneiras de interação e expressão quando voltarmos ao ensino presencial.

“São estratégias de educação a distância inicialmente pensadas para aqueles que têm mais dificuldade, mas que acabaram auxiliando a todos. Aprendemos muito nesse processo, e alguns desses aprendizados vão ser incorporados posteriormente. Temos que tirar as coisas boas da crise, e esse legado vai ficar”, afirma Marília.

Sonhos de um isolado

Escola da Vila - A Tentação de Santo Antão (Salvador Dalí)

Os alunos e alunas dos 1ºs anos do Ensino Médio têm como um dos estudos de língua portuguesa a crônica. Esse gênero está muito ligado ao jornal, versa sobre os temas mais diversos, desde fatos corriqueiros até grandes acontecimentos. O cronista é aquele que olha para as coisas de modo enviesado e cortante, por isso, apesar de mergulhado no presente, se distancia dos fatos para narrá-los e os olha com outros olhos.

Proposta: Viagem à roda do meu quarto

Esse é o título de um livro publicado em 1794 em que o autor, Xavier de Maistre, trata de muitos assuntos, mas todos eles a partir dos móveis, objetos e o que faz no seu próprio quarto. Em tempos de isolamento, quando nossos pensamentos não estão mais em contato real com os espaços sociais, resta-nos acessar o mundo pelo que temos ao nosso alcance. Se flanar pelas ruas não é mais possível, a imaginação não conhece limites – e os limites de um quarto podem ser infinitos. A proposta, claro, é mais subjetiva, mas não menos interessante.

Sonhos de um isolado

Por Catalina Gillio

Os sonhos nunca foram um tema relevante na minha vida. Eles mudam de acordo com meu humor, minhas preocupações do momento ou até pelos assuntos do dia. A maioria das vezes não lembro deles e, quando consigo recordá-los, não dizem muito para mim. De vez em quando até os considero engraçados; contar para os amigos como um assunto passageiro causava algumas risadas e surpresas, era divertido, para logo esquecê-los de novo. Isso, quando não havia quarentena.

Surpreendentemente, o isolamento social mudou de um jeito drástico esse aspecto na minha vida. Todos os dias acordo com uma nova anedota, histórias extravagantes, de muita ficção e loucura. Alguns dias senti que estava enlouquecendo. Casas na praia habitadas por pessoas com doenças raríssimas, montanhas-russas quebradas nos parques de diversão com amigos, viagens de trem com família de outros países, invasões zumbi que incluíam o jogador de São Paulo, Igor Gomes. Impressionante era o fato de eu não ter relação com muitos desses personagens ou situações. Os sonhos não tinham motivo nem base. Eram um imenso “Alice no país das maravilhas”. 

Não sei se são causados pelo excesso de tempo que tenho para pensar. Porém, suponho que essa abundância de tempo deixa todo mundo pensativo. Desse pensamento, completamente distorcido, surgem meus sonhos. Inacreditável ou não, quanto mais tempo eu fico trancado aqui dentro, mais saio para fora nos meus sonhos. E tudo parece mais normal e real apesar da anormalidade e irrealidade deles. Afinal, não estamos no normal nem quando acordamos. 

Guardei isso para mim até ouvir minha mãe reclamando pela estranheza dos seus sonhos. Guardei isso até ouvir a Melanie, minha amiga, contando as esquisitices dos seus sonhos. Guardei isso até ouvir o meu irmão mais novo explicando como os Pokémons voadores lutavam nos sonhos dele. Foi nesse momento que afirmei que não estava endoidando.

Minha irmã mais nova, diferente dos meus, sempre teve sonhos cômicos e peculiares. Quando pequena, ela fez uma pergunta muito intrigante: “Quando dormimos, nós saímos da cama para ir sonhar?”. Será? Os sonhos vão além do que conhecemos. Neles encontramos de tudo. É como viver outra vida, mas com acontecimentos totalmente desconectados. Pode acontecer um sonho de vários sonhos. Muitas vezes até parece uma mudança de cena, como um filme. Isso mesmo, um filme. 

Nossa imaginação não tem limites. Com toda a privação que estamos vivendo, sai de um jeito ou de outro. Essa vontade e desejo do coitado isolado, de sair na rua, de dar um rolê por aí com amigos, aparece no sonho. Mil vezes exagerado. Talvez esse rolê por aí acabe sendo frustrado pelos aliens que conquistaram nosso planeta. 

Mas é pensar muito e criar demais. Claramente eu não sou Paul McCartney para sonhar a melodia de uma música. Me limito aos filmes de apocalipse e fim do mundo. É estranho até. Não sonho melodias, mas consigo sonhar as maiores esquisitices. Bando de pessoas usando máscara, pandemias, vírus de alto contágio. O engraçado é que, acordado, o meu sonho continua. 

É assim mesmo. Aprendermos a viver temporariamente em um isolamento. Dessa ninguém sai ileso. No fim das contas, os sonhos do isolado são a saída de emergência para esse mundo que ansiamos viver novamente.

“Desenhe o que você vê”: converse com crianças sobre a pandemia

Escola da Vila

Por Ilana Katz[1]

Nestes tempos de incerteza, precisamos dar espaço para que as crianças possam expressar suas emoções, partilhar seus medos e fantasias e viver o tempo presente

Yom Hashoá é um dia dedicado à lembrança do Holocausto. Desde pequena, escuto que é preciso falar às gerações vindouras sobre o assassinato cruel de seis milhões de judeus, e também de ciganos, homossexuais e pessoas com deficiência, empreendido pelo regime nazista, para que a história não se repita. Ao contar essa história, nos aproximamos das histórias das pessoas que viveram a guerra, e conhecemos as invenções e as saídas, sempre mais ou menos provisórias, que cada um pode criar para tentar sobreviver. Aprendi também que é preciso contar essa história terrível a todos, não só às crianças judias, porque o genocídio cometido contra os judeus é um crime contra a humanidade.

Neste ano de 2020, Yom Hashoá aconteceu no último dia 21 de abril, no curso de outro acontecimento que não deixa ninguém de fora: a pandemia de coronavírus. Todos atravessamos esse momento: os que respeitam o distanciamento físico, para cuidar de si e dos outros, e os que estão vulnerabilizando a si e a todos os outros, ao desrespeitarem a ciência e as recomendações das autoridades sanitárias internacionais.

O que cada um decide sobre a forma de administrar a sua vida, hoje, tem um efeito muito direto sobre as outras pessoas, as próximas, as distantes, as que não contamos a existência.

É verdade também que as medidas restritivas impostas pela quarentena não são sem consequência em toda e qualquer situação de vida: temos todos o mesmo problema, ainda que sem compartilhar o acesso às mesmas soluções. Muitos de nós já discutimos a pandemia de exclusão que o novo coronavírus foi capaz de incrementar em organizações sociais construídas sobre a desigualdade. Sobre esse aspecto, vale citar coluna de Mariana Rosa para o Lunetas; o Diário de Quarentena, de Eliana Sousa Silva; e também a coluna de Eliane Brum, que conta a história de Simon e Kerry.

As medidas sanitárias visam o cuidado com as pessoas, e o necessário respeito a este cuidado nos coloca diante de uma situação nova, para a qual não fomos preparados. É nesse contexto que enfrentamos a pergunta insistente sobre o cuidado com as crianças, durante esse período que ainda não tem data marcada para acabar.

Passamos de um mês de quarentena e alguma reflexão sobre os nossos primeiros gestos já é possível. No primeiro instante, a maioria de nós insistiu no modo habitual de gestão da experiência da infância. Rápida e apressadamente, entendemos que se as crianças estivessem bem cuidadas, alimentadas, descansadas e, ainda, se a família fosse capaz de lhes oferecer um espaço adequado e o material para o acesso estável à internet, elas poderiam seguir sua rotina escolar e alcançar suas metas, mergulhadas em seus processos de aprendizagem, de aquisição de habilidades e competências.  Nesta mesma direção, ficou entendido que as escolas deveriam correr um pouco mais com sua resposta para os desafios impostos, com o objetivo de garantir que o processo não fosse interrompido, e que nenhum conteúdo importante se perdesse.

Esse primeiro movimento nos conta que trouxemos conosco, para a experiência de quarentena, os imperativos de produtividade e de felicidade que já estavam articulados em nossa relação com as crianças.

Se fosse possível não perder garantias e resultados mantendo nosso funcionamento habitual em modo indoor, talvez pudéssemos atualizar nossa fantasia de que, em tempos de catástrofe e de desastre, a vida pode ser como o filme “A Vida é Bela”.

Mas não dá pra fazer de conta que a vida é bela, porque não é possível contornar uma pandemia. As crianças estão dizendo isso para quem quiser e puder escutar.

Denunciam, em suas experiências de sofrimento e com suas alterações de comportamento, que não tem cabimento a demanda que está sendo feita na vida em quarentena. Precisamos de agora para transformar nossas práticas de cuidado. E podemos também aprender com outras práticas de cuidado que, tendo ocorrido em situações absolutamente diferentes da que vivemos, podem conduzir nosso olhar e nosso gesto em direções que hoje são tão pouco frequentes quanto urgentes.

No curso de sua guerra contra a humanidade, o nazismo construiu Terezin (Theresienstadt), um campo de concentração nas proximidades de Praga, que tinha características muito diferentes de todos as outras versões do horror praticado. Era um campo de abrigo e de transferência para os campos de extermínio e serviu aos nazistas como “campo modelo”, para exibir para a Cruz Vermelha as “boas” condições de assentamento dos judeus que ali viviam. Terezin recebeu muitos intelectuais e artistas judeus, que viviam naquela região da Europa. Uma dessas pessoas foi Alice, que conta sua história no filme “The lady in number 6”.

Em Terezin, viveram 15 mil crianças antes de serem enviadas para Auschwitz. Apenas 100 sobreviveram. A escola era proibida pela ordem nazista, mas, mesmo assim, em alguns blocos, os judeus organizaram uma escola escondida; em outro, um garoto de 15 anos editou um jornal secreto. Conseguiram montar uma ópera com as crianças que, pela condição de “modelo” do campo, foi exibida 15 vezes. As 450 meninas do bloco L410, enquanto viveram, tiveram aulas de pintura com Friel Dicker-Brandeis. Seus desenhos sobreviveram às autoras e estão expostos no Museu Judaico de Praga. Eles testemunham a vida dessas meninas e nos trazem notícia de seus pensamentos e fantasias.

Em 1941, quando chegou em Terezin, a artista checa Helga Weissová – à época com 14 anos – não foi para o bloco L410, mas trouxe seus lápis de cor na pouca bagagem permitida. Logo nos primeiros dias, escondeu-se dos nazistas e desenhou para seu pai uma cena típica do inverno de Praga: crianças brincando com um boneco de neve. Ao receber o presente, o pai, provavelmente incomodado, disse para a filha que desenhasse o que ela via. No livro que leva a palavra do pai como título “Desenhe o que você vê” (Draw what you see), Helga escreve: “Através dessa fala do meu pai, e da minha própria motivação, fui convocada para capturar em meus desenhos a vida cotidiana do gueto”. Ela conseguiu fazer 100 desenhos. Em 1944, logo antes de ser levada para Auschwitz, Helga entregou seu tesouro para um tio, que escondeu o material até o final da guerra. A expressão de cada um desses desenhos conta a história que não podemos esquecer, e também testemunham a história de uma menina que tentava sobreviver.

Lembro dessa história porque aprendo com o pai de Helga. Escuto em “desenhe o que você vê” um convite para que a filha fale sobre o que vive, para que encontre um espaço de expressão de sua experiência, e que possa partilhá-la com os outros. Os 100 desenhos que não podiam ser desenhados fizeram uma vida possível de ser vivida para Helga. Seguindo a palavra do pai, Helga desenhou o que via com os olhos e o que enxergava com o desejo.

Após a libertação, Helga tornou-se professora de artes em Praga. Mas isso foi muito depois, em um futuro construído em articulação decidida e delicada com o que antes era um presente sem tempo de conclusão imaginado.

A humanidade vive hoje em situação de desastre, mas não estamos em guerra, e a história de Helga não está aqui para buscar analogias. O que precisamos, nesse instante, é rever e reordenar nosso modo de quarentenar, e é nesse sentido que, no dia de hoje, volto para essa transmissão. Aprendemos com Helga e com seu pai que podemos ajudar as crianças a falarem da experiência que estão vivendo, sobre o que gostam e sobre o que sentem falta, sobre os medos e as fantasias, sobre o que é difícil de viver e que faz sofrer.

As crianças podem falar o que sentem de variadas maneiras: conversar, desenhar, gritar, chorar, sonhar e pesadelar. E a gente pode escutar, acolher, comentar e pode, também, não ter uma solução imediata para cada problema que a criança nos apresentar nessa conversa.

Nesse segundo mês da quarentena, já podemos calcular que o jeito que vamos sair dessa experiência está profundamente articulado com o modo que podemos viver esse tempo. A prática nostálgica de defesa dos velhos hábitos na nova configuração da vida não funcionou – virou roupa que aperta, ficou sem cabimento. A certeza da incerteza do futuro produz muita ansiedade, dá medo, e isso tem efeito na relação com os filhos.

No ‘currículo de quarentena’ precisamos, portanto, ficar junto com as crianças no tempo presente, na condição que a vida de agora permite, e tentar produzir soluções locais e transitórias para as novas e para as velhas questões que se apresentam.

A escola também precisa situar-se diante da tarefa de comunicar-se com a sua comunidade e se permitir acompanhar o desdobrar das novidades que a situação vai impondo.

Se a gente conseguir enfrentar a lógica da solução instantânea e da produtividade que tem sempre o objetivo, mais ou menos explícito, de “garantir felicidades”, teremos, em cada um dos nossos pequenos mundos, das nossas famílias, das nossas escolas, revisto um ideal de infância que corrompe qualquer prática de cuidado, porque as confunde com a falsa proposta de que permanecer muito ativo é o que nos salvará, garantindo que, apesar da pandemia, tudo continua como antes.

Temos o compromisso ético de avaliar a nossa posição no circuito de desigualdades que o imperativo de produtividade impõe a cada um e para todos.

A violência do mundo no qual o produtivismo comanda também é extrema, e interrompe as nossas invenções e desenhos.

Talvez, para chegarmos a esse depois, nesse momento do antes em que estamos agora, todos nós, pais, crianças, jovens, professores, escolas, famílias, instituições, todos nós devamos nos engajar na palavra do pai de Helga: desenhe o que você vê. Fale do que você vive. Pense no que você quer mudar.


Texto publicado dia 29.04.2020 no Lunetas.


[1] Ilana Katz é psicanalista e pesquisadora na área da infância, doutora em psicologia e educação na Faculdade de Educação da USP e pós doutora em psicologia clínica no Instituto de Psicologia da USP.

Cyclamens, Bem-te-vis, Bernardos e Juremas

Se você fosse um cronista, o que escreveria sobre o isolamento social? 

Escola da Vila

Os alunos e alunas dos 1ºs anos do Ensino Médio têm como um dos estudos de língua portuguesa a crônica. Esse gênero está muito ligado ao jornal, versa sobre os temas mais diversos, desde fatos corriqueiros até grandes acontecimentos. O cronista é aquele que olha para as coisas de modo enviesado e cortante, por isso, apesar de mergulhado no presente, se distancia dos fatos para narrá-los e os olha com outros olhos. Foi o que fez a aluna Marina Zilles ao escrever sua crônica a partir da proposta inspirada no momento presente de pandemia que estamos vivendo.

Proposta do professor: Da minha janela, vejo, ouço, percebo…  

Boa parte do nosso contato com o mundo exterior se dá pelas janelas. Ruas vazias, céus límpidos, silêncio. Nuvens caminham, crescem, desfazem-se… silêncio quebrado por crianças… silêncio quebrado por crianças enraivecidas, por pais desesperados, por manifestações políticas… franca espionagem de janelas e sacadas: gente tomando sol, gente que se exercita… Pássaros, bichos… As janelas abrem, hoje, um universo de acontecimentos.

Cyclamens, Bem-te-vis, Bernardos e Juremas

Eu queria ser um desses bem-te-vis que voam em bando na frente da janela do meu quarto. Voam tão faceiros… Eu acordo sem ter dormido, abro a janela sem a ter fechado e olho pra eles sem que eles olhem pra mim. Eu gostaria muito de ser um deles, queria voar assim, aglomerada, vivendo a cidade, aproveitando os parques e campus universitário deserto perto da minha casa, respirando o ar inválido de São Paulo, visitando as ruas com nomes de rios soterrados, adentrando em uma observação atenta e com um fundo antropológico para ver se, dessa vez, esses humanos asquerosos aprendem algo. 

Às vezes, em meio aos móveis do meu quarto, já cansados da minha patética presença, penso seriamente em escalar a minha minibiblioteca, que contém somente os livros que me aquecem o coração, e arrancar a rede da janela, segurar firme nas bordas das paredes, impulsionar o corpo para frente e para trás, para frente e para trás, e, enfim me juntar com esses bem-te-vis que me veem tão mal pelas frestas de seus olhares mais concentrados no próprio voo do que na minha presença inanimada. 

Queria eu poder voar com eles, gostaria muito de ouvir as histórias que eles têm a me contar. Poderíamos falar de como a chuva anda menos amarga, como o céu tem mais estrelas, como as ruas andam mais calmas e cheias de uma morbidez feliz. Poderíamos zombar dos humanos e falar como eles são esquisitos. Sempre reclamam que nunca têm tempo para descansar, pois “a correria da metrópole consome o indivíduo”. Mas quando eles precisam ficar em casa, eles só querem voltar às ruas, voltar para a correria. Será que sentem falta da adrenalina? Será que é a correria física que consome a “complexidade do ser”? Acho esquisito… Hoje mesmo vi a moça do quarto andar enlouquecer… Mesmo que agora ela durma, pelo menos, 8 horas por noite, faça seus exercícios, coma suas refeições e leia seus livros. Ela enlouqueceu… O sistema de internet estava sobrecarregado.

A verdade é que não aguento mais conversar comigo mesma. Às vezes é bom, faz bem. Mas não dá mais. Acabamos nos tornando os conhecidos-desconhecidos-chatos de nós mesmos. Desistimos de tudo 249 mil vezes por dia. Tentamos cuidar de plantas para não nos sentirmos tão sozinhos. Cantamos músicas dos artistas de que gostamos, pois não gostamos suficientemente de nós para cantar as nossas. Vemos fotos, pois queremos sentir o gosto que a vida deixou em nossos lábios, após nos dar um beijo molhado e demorado de despedida. E por isso, olhamos aflitiva e esperançosamente pela janela sempre que escutamos qualquer ruído, pois algo nos faz acreditar que pode ser ela dizendo que agora volta, e que não vai nunca mais.

Às vezes nos pegamos pensando na falha do concreto e no ponto em que o capitalismo voraz, que permeia nossa sociedade, chegou. É como se nossa “civilização” fosse uma vila construída sobre um solo contaminado com rejeitos tóxicos. Criamos teorias loucas de como as coisas poderiam ter acontecido se fosse tudo diferente… Se eu tivesse falado aquilo com ela… Se o resultado das eleições fosse outro… Se eu tivesse estudado astrologia nas férias… Se eu tivesse desistido de cuidar da Cyclamen que cresce na cabeceira da minha cama… Se eu tivesse mudado de país… Se eu tivesse lido aquele livro… Se eu tivesse ido ao bar nas noites de quinta encontrar Camilla e trocar beijos com Amanda… Se eu tivesse escutado mais a minha mãe… Como seríamos? Onde estaríamos?

Toda essa morbidez aflitiva de quem não pode mais com a própria consciência me toma as forças, a noção de tempo e a altura das paredes do meu quarto. É como se eu estivesse sintomática, mas sem a enfermidade. Como se donzelas histéricas chorassem ribozima nos meus pulmões e arranhassem minha traqueia com suas garras recém-afiadas. Sinto as lágrimas delas percorrerem todas as minhas terminações nervosas, assim me impedindo de sentir o ritmo calmo e faminto com que a minha própria mobília me devora. Sem comunicação com o “fora”, sendo somente utilitária, acabo virando mais um elemento inanimado nesse quarto abafado de luz amarelada e cartazes molhados pelos fluídos corporais que troquei em manifestações e carnavais. 

Pelo menos mantenho uma rotina noturna: toda noite, antes de me deitar para não dormir, me dirijo para a porta. Lá coloquei um papel intitulado “DIAS NA QUARENTENA”, e, como um presidiário dos filmes de Hollywood, marco o dia que se passou. Finalizo o ritual com um suspiro profundo e demorado. Bernardo, o violão daqui de casa, diz que é tudo besteira, as coisas não estão tão ruins. Ele diz que tudo vai passar, só é preciso ter calma. Acho fofo como ele tenta me animar. Jurema, a guitarra, nos olha com malícia, e guarda para si o comentário. Olho em volta, caio na cama, apago a luz e sou um deles. Estática e à espera do dia em que voarei pelas ruas da cidade outra vez.

Ass.: MarinaZzizi

Cenário do coronavírus leva a mudanças no calendário letivo e nas propostas pedagógicas

Escola da Vila

Reabertura das escolas em São Paulo depende de plano municipal; Vila terá um programa de ação por segmento, e reflexão sobre a crise deve fazer parte das atividades na retomada.

Com a suspensão das aulas presenciais diante da pandemia do novo coronavírus, o calendário letivo deverá sofrer ajustes, o que vai depender das definições oficiais acerca da volta às aulas e como se dará a primeira etapa de retomada das escolas abertas. “Isso deve acontecer ainda sob regime de distanciamento social e em forte alinhamento com as diretrizes da secretaria da saúde e da vigilância epidemiológica de nosso município”, diz Fernanda Flores, diretora geral da Escola da Vila.

Ela explica que o governo estadual apresentou em linhas gerais o Plano São Paulo e, em 8 de maio, haverá um detalhamento maior. Mas serão as circunstâncias determinadas pela Prefeitura de São Paulo que darão o ritmo de reabertura das escolas na cidade.

“Estamos organizando um plano de reabertura geral da Vila que, para além das definições de medidas sanitárias, envolve uma readequação de mecanismos de diagnóstico e remediação dos processos de aprendizagem, de acordo com critérios e objetivos pretendidos a cada etapa da escolaridade”, afirma. De acordo com ela, serão consideradas também as necessidades específicas de cada segmento — por exemplo, suporte pedagógico e emocional para os alunos e alunas que encerram o Ensino Médio neste ano e passarão por exames externos.

Quanto ao período de férias, ela conta que a escola está em processo de definição, pois são muitas as variáveis, e que a ideia é informar as famílias sobre isso até o início de maio. “Inicialmente, precisamos cuidar da recepção, acolhimento e do bem estar mental e físico dos nossos estudantes e engajar as crianças e jovens nessa retomada”.

Segundo a diretora, outros aspectos importantes são que o foco da escola continue sendo no vínculo com o aprendizado e que o centro das preocupações da equipe docente seja que os alunos e alunas continuem aprendendo. Para isso, a cooperação é fator fundamental, seja ela entre estudantes, na forma de grupos de apoio e estudo e entre professores, alunos e alunas. “Nos tempos de retomada, vamos refletir sobre os projetos que fazem mais sentido, porque precisamos seguir pensando sobre esse momento em nossa história humana, coletiva e singular. Tudo isso deve compor as ações de reorganização das atividades nessa retomada.”

A diretora destaca que, para cada segmento, a Vila terá um programa de ação em um calendário ajustado às expectativas de aprendizagem para este ano, com a composição de tempos e espaços que respondam às preocupações da escola com a formação integral dos alunos e alunas, com respeito e consideração das diferenças, e sem um atropelamento desnecessário e demasiadamente carregado em tarefas e atividades, que podem interferir negativamente na manutenção do engajamento das crianças e jovens com a escola.

“Como sempre, a equipe docente da Vila trará propostas criativas e assertivas para a reconexão com a vida na escola, como ela se apresente. Ela não será a mesma, e temos de assumir isso para propor um projeto consistente e factível”.

O que podemos aprender com as crianças durante a quarentena?

Escola da Vila

Por Julieta Jerusalinsky ¹

Durante essa quarentena está acontecendo algo praticamente inédito: são os pais quem têm que, com exclusividade, cuidar das crianças!

Após quatro semanas em isolamento e tendo provavelmente mais do que o dobro disso pela frente, viramos todos “do lar”, ainda que certamente não tão belos ou recatados, como no ideal de alguma primeira-dama. Pelo menos é o que revelam os índices de aumento de violência doméstica em nosso país durante a quarentena, ou o de divórcios após o seu término na China.

Enquanto todos permanecem em casa, os vídeos caseiros circulam nas redes sociais. Metade deles oferece mil e uma possibilidades de atividades edificantes para que os pais mantenham as crianças aprendendo, felizes e produtivamente entretidas. Para além das boas intenções desses, na outra metade temos alguns flashes bastante irônicos, como os de pais desesperados diante do envelope de homeschooling pensando em todas as lições de casa que terão de fazer, em meio a reuniões virtuais de trabalho intercaladas com lavagem de roupa e passadas de pano. Ou de professoras que gravam aula virtual para seus alunos em tom cordial, mas mudam radicalmente de voz, como quem baixou o santo, diante dos filhos que interrompem; até outros bastante mais cruéis, em que pais se camuflam no sofá, desaparecendo, quando as crianças os chamam.

Adoramos idealizar fofurices ao falar da infância. Mas é bom lembrar, junto com Foucault, que as escolas surgiram na mesma época que os manicômios e as prisões. Todas instituições dedicadas aos que estariam moralmente despreparados para a cidadania: loucos, transgressores e crianças. Portanto, ninguém disse que cuidar das crianças seria fácil. Inclusive essa é uma frase supracitada por pais no consultório de psicanalistas: dá muuuito trabalho!

De fato, o amor infantil exige nada menos do que tudo, afirma Freud. São os adultos que precisam acolhê-las, permitindo-lhes experimentar os prazeres da vida, assim como, progressivamente, transmitindo-lhes restrições de satisfações imediatas em nome de outras muito mais complexas e a longo prazo que só poderão experimentar através dos ideais da cultura. Nesse caminho da estruturação psíquica e da educação, não há atalhos. Ao longo dele, as crianças, repletas de demandas, têm se encontrado cada vez mais com pais que, culpados pela pouca disponibilidade de tempo para conviver (já que assoberbados de trabalho), preferem satisfazer os filhos em tudo o que estiver ao seu alcance em nome de serem amados. Mas o conflito se apresenta quando não há mais uma agenda repleta de atividades fora de casa, de ambos os lados, que permita esquivar os conflitos.

Sejamos realistas: as crianças, estas, já estavam confinadas, sem rua para poder brincar dada a violência, com jornadas escolares ou atividades extras de pelo menos oito horas por dia. A diferença é que agora os pais estão junto com elas. Os pais, por sua vez, já estavam profundamente solitários na tarefa de cuidar das crianças, já que este cuidado deixou de ser, há tempos, a responsabilidade de toda uma vizinhança, ou do convívio com uma família extensa, ocorrendo por meio de contratações de serviços terceirizados.

Diante disso tudo, em lugar de pensar tanto como vamos ensinar às crianças conteúdos curriculares durante a pandemia, talvez seja preciso interrogar o que poderemos aprender juntos em um momento em que os adultos estão tão espantados quanto as crianças diante dos acontecimentos do mundo, tendo que refazer os projetos para um nebuloso futuro a fim de poder sustentar o valor de todos os pequenos atos no presente do cotidiano.

Educar, muito mais do que ensinar conteúdos, é transmitir simbolicamente o que importa na vida: histórias, comidas, músicas, piadas, brincadeiras e, principalmente, as grandes questões que nos instigam, como aliás fazem os grandes professores, mas também tias, avós, pintores, jardineiros ou empregadas da casa, que nos transmitiram legados decisivos enquanto íamos fazendo junto com eles essas atividades banais do cotidiano, que deixam de ser chatas ou repetitivas se permeadas por um compartilhamento lúdico. Lavar roupa, passar o pano, molhar as plantas ou cozinhar não são tarefas que os pais devam fazer enquanto as crianças ficam no tablet para depois diverti-las. É justamente em meio a esse fazer compartilhado que podemos encontrar uma brecha para a transmissão e construção de um saber entre gerações, fora dos modelos performáticos da internet, com intimidade.


¹ Julieta Jerusalinsky é mestre e doutora em psicologia clínica; professora dos cursos de especialização em Teoria Psicanalítica (COGEAE PUC-SP) e Estimulação Precoce: clínica transdisciplinar do bebê (Instituto Travessias da Infância – Centro de Estudos Lydia Coriat – SP).

Este texto foi publicado originalmente no Matinal, de Porto Alegre.

Como união e coletividade podem ajudar a combater a solidão da quarentena?

Na Vila, alunos formaram grupos para facilitar contato e aprendizado em equipe; desafio é manter a vitalidade do ambiente escolar sem os encontros presenciais.

Na Escola da Vila, mais de um mês após o início da quarentena devido à pandemia do novo coronavírus, uma das reflexões que os educadores têm feito é sobre como olhar para vida coletiva em situação de isolamento social.

“O homem é um ser gregário, e a escola é, por definição, um lugar de reunião, de encontro. Normalmente, nós já valorizamos bastante a sociabilidade e a perspectiva do coletivo, dando a esses aspectos a mesma importância atribuída ao currículo formal”, diz Fermín Damirdjian, orientador educacional do Ensino Médio. “Nesse momento de isolamento social, a questão da convivência ganha ainda mais relevância e estamos pensando em formas de manter isso”.

As reuniões de famílias, que costumam acontecer trimestralmente e seriam realizadas em 20 de maio, foram antecipadas em um mês como forma de manter a comunidade próxima. “Sentimos a necessidade de refletir com as famílias como preservar a escola funcionando com vitalidade sem os encontros presenciais, sem o ambiente escolar”, ressalta o orientador.

Escola da Vila
Reunião de famílias online

Ele conta que, durante a semana de transição, antes da escola fechar, houve um pedido para que os alunos se organizassem em grupos para que pudessem se conectar mais facilmente durante o isolamento social — entre eles e com a coordenação. “Mantenho contato constante com os alunos, por chamadas e videoconferências. Esses encontros virtuais ajudam a levar melhora nesses dias de quarentena. Quando se impede ou se dificulta a vida escolar, retira-se também a vitalidade da pessoa, por isso a importância de preservar esses laços”

Os alunos receberam orientações para seguirem em contato, pedirem ajuda uns aos outros e resolverem dúvidas com os colegas e não com vídeos do YouTube. “Prosseguir com essa união é uma forma de continuar com a socialização e o afeto entre eles. Queremos que cada um leve a vida escolar com o seu grupo e não com a internet”, ressalta o educador.

Geografia e a Pandemia

Escola da Vila

Por Paula Camargo, professora de Geografia do Ensino Médio

Diante da pandemia do Covid-19, o afastamento social orientado pela OMS tem sido vivenciado por parte da população mundial nas últimas semanas. Sem embargo de sua importância, são previsíveis impactos negativos econômicos e sociais. Estes podem ser maiores ou menores a depender da atuação pública, privada e de organizações civis. No Brasil, já têm sido noticiados, por exemplo, o aumento de violência doméstica e da fome. 

Com intuito de relacionar os conteúdos do curso de Geografia aos acontecimentos vigentes, os estudantes de 3º ano do Ensino Médio realizaram a distância diversas atividades debatendo se as regiões político-administrativas do Brasil correspondiam aos estereótipos historicamente formulados sobre elas. Enfatizando a região Nordeste, estudaram aspectos sociais e físicos que os levaram a compreender o quão equivocada é a associação desta região como sinônimo de seca, pobreza e fome.

Para abordar o tema da fome, sofrimento tão distante da maioria dos estudantes, selecionamos diversos recursos textuais e audiovisuais para mobilizá-los à seguinte questão: Quais as especificidades da fome nas distintas regiões e como a crise global provocada pelo Covid-19 pode intensificar esse complexo tema? Os recursos estão especificados ao final.

O retorno do grupo do 3º EM foi incrível! Textos bem embasados e cuja escrita demonstrou a sensibilidade e indignação tão almejada no projeto da Vila, a pensar na formação integral e complexa deles que são, assim como nós adultos, cidadãos brasileiros.

Compartilhamos com vocês algumas das produções do 3º EM:

Produção em dupla: 

Lola Aguiar (3ºA) e Alice Rossi (3ºB)

Produções individuais

3ºA

Alexandre Matera

Clara Gomes

Diogo Varago

Maria Luísa Freire

Pedro Nunes

3ºB

Gabriel Medeiros

Francisco Silva

Luís Oliveira

Sofia Bodião

Sofia Figueiredo

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Para aqueles mais interessados no tema, seguem aqui as referências utilizadas no curso de Geografia.