Um momento de suspensão

Escola da Vila
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Por Tuna Serzedello

Olhos atentos observando filhos, alunos, colegas transformarem o espaço da escola em um lugar de sonho, lembranças, histórias, memórias individuais e coletivas.

A potência do teatro, latente nos alunos-atores, grande demais para ser contida em um corpo (ou vários) invade a sala e as mentes e os corpos dos espectadores, obrigada a seguir o elenco pelos espaços da escola, numa ação teatral que não fica presa a um só espaço da instituição, mas invade todos os outros.

Aqueles, pais e professores, acostumados a mostrar o caminho a ser seguido pelos jovens, neste momento de suspensão, se deixam levar pelos alunos-filhos-atores.

São muitas as denominações para esses jovens, sem contar os papéis que assumiram na peça Terror e Miséria do III Reich, mas que, como quer o autor alemão, com distanciamento brechtiano, sem deixar de serem eles mesmos, de exercitar sua consciência crítica.

Empoderados da força das convenções teatrais, que como uma onda transformadora, como um “superpoder” adquirido, vão se transformando e transformando ao seu redor: escola vira palco, que vira cozinha, que vira hospital, que vira trincheira. Espaços imaginários que se materializam ali, naquele mesmo lugar, no qual durante o dia se aprende matemática, química e literatura: um grande espaço transformador.

O mundo é grande demais e cabe inteiro nas salas dessa escola, que processa e devolve o aprendizado por meio de seus alunos, em forma de ato: de teatro.

O protagonismo jovem se exercita nesse palco da escola, que permite ser transformada por eles e assim os transforma.

O ato de transformar é transformador” diz o homem de teatro Augusto Boal.

Que os aplausos que nos despertaram desse momento de suspensão nos façam perceber a grandeza do feito de todos os envolvidos ali: pais, professores, alunos e funcionários da escola.

Hoje, quando voltarmos à “normalidade” da vida escolar, jamais nos esqueceremos de que aquela sala, ontem, foi um tribunal do III Reich, e que aquele aluno, sentado ali, carrega em si um ator. E ator é aquele que age.

Relato de Rafaela Sérpico

“A vida é o que fazemos com nosso tempo.
Eu gosto de fazer teatro, e pra mim, minha vida só começou de verdade no momento em que fiz a primeira aula, em que li o primeiro livro em forma de peça e fui em uma peça. Quando subi em um palco pela primeira vez, devo admitir, achei que meu coração ia sair pulando e roubar minha cena.
Esse ano, fiz uma das peças que mais me entusiasmou.
Às vezes, treinando no meu quarto e falando “Heil Hitler” dava vontade e até cheguei a chorar diante de tudo que esta expressão tem por trás…
Mas, ao mesmo tempo, eu consegui me conhecer mais, consegui perceber que mesmo com todo esse valor de “bem” e “mal” imposto pela sociedade, todos temos ambos os lados, e todos devemos expressá-los e não guardar e guardar dentro da gente, porque eu sei que uma hora isso precisa sair. E essa peça me ajudou por isso, porque ela me mostrou esse lado, de que é importante ser aquilo que você não é, falar aquilo que você mais despreza e simplesmente encarar isso mais do que tudo, como uma forma de aprendizado e justa oportunidade de poder dizer tais diferentes concepções, afinal, a realidade dessa peça não é a minha, eu disse coisas que jamais pensaria ou teria tal visão de mundo. Mas eu me senti mais leve e eu não estou dizendo que meu lado “mal” é nazista, porque eu não sou nazista de lado nenhum.
O que quero dizer com tudo isso é simplesmente que eu percebi com essa peça, que o teatro é a melhor forma de colocar o lado “mal” para fora e é também a ferramenta que mais me traz autoconhecimento.
“Terror e miséria do III Reich” foi uma experiência simplesmente incrível, e por mim eu sairia pelo mundo todo apresentando ela e falando esse texto maravilhoso, e que trouxe o que nenhum dos milhões de filmes sobre o nazismo que eu assisti jamais me mostraram e representaram.
Fazer essa peça e usar meu tempo pra ensaiar ela em casa ou na escola foi a experiência que me mostrou que, da minha vida, que é o que eu faço com o meu tempo, quero fazer teatro, afinal, não existe vida onde não há teatro.”

Relato de Carolina Alayon

“Nós do Grupo de Teatro 2016 da Escola da Vila, realizamos a peça “Terror e a Miséria no Terceiro Reich” por Bertold Brecht, dramaturgo poeta alemão. Foi escrita entre 1935 e 1938, fazendo uso de recortes de jornal, notícias recebidas da resistência – Brecht vivia então na Dinamarca –, rádio, ou qualquer forma que pudesse levar a informação além das fronteiras do Reich, que se estabelecia. É um panorama da sociedade alemã sob o domínio nazista. Uma coleção de instantâneos saída de casas operárias e cortes judiciais, de trabalhadores socialistas e comunidades judaicas, de campos de concentração e aulas da juventude hitlerista. Mais do que retratar uma década mergulhada em equívocos, Brecht nos força a enxergar a decadência de toda uma sociedade, sufocada pelo terror.
Esta peça teatral composta de múltiplos quadros independentes, aparentemente desconexos, em que cada cena nos mostra uma faceta do regime, em que as personagens cumprem todo o seu papel numa aparição breve que contudo as não diminui nem lhes retira força, encontra a sua unidade no seu título.
Os atores confirmam a ênfase desafiadora do texto e do caráter trágico, violento, repressor e opressor de seus personagens. Para atingirmos a compreensão do ato fora necessário muito esforço da parte de todos e ensaios acompanhados da direção de Tuna Serzedello, que disponibilizou obras de referência para estudo do grupo. Este diretor, que contribui maravilhosamente trabalhando arte/teatro com jovens, nos orientou no processo de construção do personagem e de ocupação do espaço da Escola para a apresentação, processo que demanda foco, bom gosto e disciplina.A profundidade e clareza do teatro, que consuma o momento histórico retratado em uma situação prática, é forte devido a temática, espelhada no período da Guerra nazista, do facismo hitlerista. Sua força intensa atinge o espectador quanto ser observador e sentimentalista, provocando um dilema reflexivo entre conforto e incômodo referente às condições físicas e emocionais tanto do personagem, quanto dos atores e dele próprio.”

Sustos e arrepios pelas ondas do rádio

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Por Luíza Zaidan, Professora de teatro do Ensino Fundamental 1 e 2

Escolher um material para trabalhar nas aulas de teatro nunca é uma tarefa fácil. Os desejos são muitos, as opiniões entram em conflito: história de princesa, roteiro de filme americano, tragédia grega, poesia. Há quem queira contar os casos da própria família ou brincar de ser o autor.

“Do que vocês querem falar?” Surge um festival de mãos se erguendo, depois que a professora de teatro ataca com a clássica pergunta. Apesar de comum, esse questionamento está sempre no ar. Porque é dele que surge o impulso de realizar no teatro. O que lhe toca, individualmente? O que mobiliza esse grupo, em especial? Como unir, em um único texto, as necessidades e paixões de toda a turma? No primeiro semestre de 2015, a resposta veio em coro: “Queremos contar uma história de terror! ”

Sim, pode ter sido algum evento astronômico, influência dos filmes ou a mais pura coincidência. O fato é que todas as turmas de teatro – do Ensino Fundamental 1 e 2 – queriam trabalhar os tais contos de mistério. Ou, como dizem os alunos menores, “as histórias de susto”.

Tema escolhido, atacamos o desafio seguinte: contar histórias de medo usando nossos jogos, as ferramentas próprias da aula de teatro. Com os alunos mais velhos, fomos beber na fonte do mestre, levando para a cena contos de Edgar Alan Poe. Os mais novos mostraram interesse especial pelas lendas brasileiras e os arrepios que podem causar o galope de uma mula-sem-cabeça ou os uivos do lobisomem. Mas ainda não tínhamos completado nossa escolha.

Foram dois meses de pesquisa até encontrar o estímulo perfeito. Mais uma vez, a reposta veio dos alunos, que leram no livro Minha Querida Assombração, de Reginaldo Prandi, as palavras que procuravam para tirar o fôlego dos espectadores.

No livro, uma família paulistana viaja para uma fazenda, no interior do Estado. Durante as férias, além de entrar em contato com a cultura caipira, as crianças ficam fascinadas com os casos fantasmagóricos contados, a cada noite, pelos anfitriões do lugar.

Mas o que, naquelas histórias, fazia a turma ficar de cabelo em pé? Aos poucos, os mecanismos do suspense foram se revelando: sons assustadores; uma maneira especial de narrar, com pausas escolhidas a dedo; personagens com vozes roucas e misteriosas. O terror não estava tanto nos acontecimentos, mas na maneira de contá-los.

Logo, os recursos sonoros se mostraram um forte aliado. O galope de um animal feroz poderia vir de dois pedaços de madeira batidos contra o chão. Um instrumento musical lembraria o som da chuva que atravessa as cenas de mistério. Com os próprios corpos, os alunos começaram a trazer vendavais, portões enferrujados e fantasmas para dentro da sala de aula.

De olhos fechados, ouve-se um tanto e o resto se imagina. Voltamos no tempo para buscar, na linguagem das radionovelas, os recursos que serviriam às nossas histórias de terror. A ideia era abrir mão de cenários, figurinos e do tão estimulado sentido da visão, para mergulhar de vez no território do ouvir e contar uma narrativa usando apenas os sons. Além disso, seria uma ótima oportunidade de experimentar uma nova maneira de interpretar. A composição física das personagens, suas maneiras de andar e agir, os acontecimentos da história, tudo foi pesquisado para que, depois, cada detalhe fosse condensado na voz dos alunos/atores.

A estrutura em capítulos do livro de Reginaldo Prandi favoreceu um trabalho coletivo entre todas as turmas. A cada episódio da radionovela Contos da Meia-noite (título escolhido pelos alunos de teatro), um grupo do Fundamental 1 ou 2 narra uma história de terror que assombra o pessoal da Fazenda Velha.

Agora, chegou a hora de acompanhar o resultado desse trabalho. Junte uma boa dose de coragem com chá e bolo caipira de fubá. Reúna a família como se fazia antigamente, em volta dos antigos aparelhos de rádio e… bom proveito pro’cês! 

Radionovela Contos da Meia-noite

Capítulo 1: O Poço do Destino – Turma de teatro do Fundamental 2.

Capítulo 2: A Noiva da Figueira – Turma de teatro do Fundamental 1, Unidade Morumbi.

Capítulo 3: A Volta da Mula-sem-cabeça – Turma de teatro do Fundamental 1, Unidade Butantã, período da manhã.

Capítulo 4: O Baile do Caixeiro Viajante – Turma de teatro do Fundamental 1, Unidade Butantã, período da tarde. 

O eterno retorno

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Blecaute” (de Davey Anderson/2014)

Por Tuna Serzedello

“Posso participar da aula hoje? Me deu uma saudade!”

Uma das coisas mais gostosas e gratificantes desses meus 8 anos de teatro (já!) na Escola da Vila é esse retorno dos ex-alunos à escola.

Os universitários, hoje na USP, UNESP, UNICAMP, ou mesmo no cursinho, são presença obrigatória nas aulas – e não é só logo depois que se formam no Ensino Médio. Anos mais tarde, vêm frequentar aulas, assistir às peças dos alunos atuais, pedir textos emprestados, ajuda em trabalhos universitários, entre outras coisas.

É uma honra ver que o vínculo estabelecido com eles se transforma e continua florescendo.  É uma volta ao lar. Ao conforto. Ao lugar da segurança. E, ao mesmo tempo, uma inveja saudável daqueles que estão passando por aquilo que eles passaram.

Com eles, voltam histórias, lembranças, risadas, piadas internas e muito orgulho de ver como eles amadureceram, mudaram a voz, trocaram de casca, mas mantêm o mesmo olhar que só o afeto construído por tantas aulas percebe intacto. E, além disso, conto com o auxílio luxuoso da ex-aluna Luiza Zaidan, hoje coautora dessa história.

Como o teatro tem o poder de unir pessoas tão diferentes em torno de um mesmo objetivo e construir bonitas amizades ao seu redor?

Acho que é porque o trabalho realizado desloca os jovens da zona de conforto e das amizades pré-estabelecidas e os convoca a ser mais. A combinação das diferentes características humanas é a fortaleza de cada grupo. E nunca tivemos (nem teremos) grupos iguais, homogêneos, de pessoas com as mesmas características (que bom!). É nessa heterogeneidade de humores, amores e quereres que podemos, juntos, nos desenvolver mutuamente.

Um grupo de teatro só tem razão de existir enquanto há conflito. Teatro não existe sem conflito. Drama! E é justamente isso o que não falta quando colocamos numa mesma sala mais de 30 jovens e adolescentes. Meu papel não é eliminar os conflitos, mas tentar fazer com que aprendamos com eles e os usemos como pilares para o nosso desenvolvimento humano e expressivo. São eles: teoria e história do teatro, jogos dramáticos, experimentos cênicos, exercícios de interpretação e, é claro, muitas risadas.

Seres únicos, em um encontro único, só podem criar algo único para quem tem a alegria de assistir a esses jovens em cena. E, assim, com tanta intensidade, descobertas e conflitos, é claro que dá saudade de voltar para ter a certeza de que éramos felizes (e sabíamos disso)! Só não poderíamos imaginar que passaria tão rápido.

Parabéns Escola da Vila pelos seus 35 anos, e obrigado a todos os que fizeram teatro por aqui. Vocês fizeram os meus anos aqui voarem, embora os meus cabelos brancos não me deixem esquecer de que eles passaram. Voltem sempre! A casa é de vocês.


Saudades de cada turma. De cada peça. Desde o início do meu trabalho na Escola da Vila, já passamos por várias apresentações em Festivais de Poesia, Vila Literária (dando vida aos textos dos alunos do fundamental), Viladas, Saraus, festivais fora da escola, saídas culturais, ensaios fora de hora, oficinas, e montamos, “oficialmente”, as peças:

Eu quero uma para viver” (criação coletiva/2008);

A Máquina” (de Adriana Falcão/2009);

Fez-se de Triste” (colagem de poemas de Vinicius de Moraes/2009);

Deve ser uma coisa maravilhosa” (colagem textos realistas/2010);

 “Um Macbeth” (de William Shakespeare/2011);

Uma peça por outra” (de Jean Tardieu/2012);

Senhora dos Afogados” (Nelson Rodrigues/2012);

Mambembe Antropofágico” (colagem textos brasileiros/2013) ;

Blecaute” (de Davey Anderson/2014);

Revolução das Mulheres” (de Aristófanes/2014);

O Jardineiro é Godot e as árveres somos nozes” (colagem textos teatro do absurdo/2014).

Para além das lembranças, termino esse texto de memórias falando do futuro, com uma citação da peça “O Primeiro Voo de Ícaro” de Luís Alberto de Abreu:

“Está tudo por fazer

Caminho e caminhada

Partir, sempre partir

Exista ou não estrada.

Aonde for a luz da lua

Também nós podemos ir!”

Imagina isso: um grupo de alunos que resolveu fazer teatro!

Por Luíza Zaidan

Imagine uma ex-aluna que se encontrou com o teatro nos corredores da Vila, se formou como atriz e agora volta à sala de aula, como assistente do grupo do Ensino Médio. Imagine como foi acompanhar esse processo.

Primeiro, imagine o cenário: uma turma querendo apostar no encontro com o público, para sentir na pele as dores e a delícia de fazer teatro.

Depois, imagine o pretexto: o texto que dará voz à turma. O contexto que reunirá aqueles jovens no palco, aprendendo a se organizar como grupo, vencendo desafios e se divertindo – diversão, é esse o objetivo número um do teatro.

Blecaute, nosso “texto-pretexto”, começou assim. Abrigando um monte de anseios, desejos e, sobretudo, a vontade incessante de contar uma história. De dar vida a um relato de outro jovem, dessa vez escocês, que passou por situações de violência na escola, reagiu e foi parar na prisão, de onde começa a narrar sua experiência.

Foi partindo do relato desse garoto, que inspirou a peça de Davey Anderson, que o grupo se preparou para seu grande encontro: o dia em que a experiência teatral se completa. É quando um sujeito se coloca diante de outros e representa. E comunica. E questiona, é questionado, estimula reflexões, críticas, se expõe, abre espaço para o erro; tropeça e se levanta. Tudo diante do público, que é testemunha, mas também é cúmplice daquilo que se vivencia durante uma apresentação. Porque jogo é jogo e treino é treino. Somente quando um espetáculo sai da sala de ensaio e encontra seu espectador é que ele realiza seu propósito, fechando o círculo da criação artística.

Mas, sem treino, não tem jogo. Logo nos primeiros ensaios de Blecaute, a coisa foi tomando forma. A linguagem estética que vestiria nossa história foi surgindo a cada pequena cena. “E se a gente empilhar duas mesas para fazer a cela da prisão?” Aos poucos, mesa foi virando cadeia, apartamento, cidade. Tudo cabia naquela sala de aula fechada: de manhã, problema de matemática, lição de biologia, experimento de química. À tarde, a cada sexta-feira, aquele espaço ia sendo transformado em ficção.

No início do texto, o autor já avisa: “Esta peça não vem com manual, nem com uma série de instruções para sua encenação.” Melhor ainda! Éramos os novos donos daquela história e poderíamos contá-la da forma que achássemos melhor. A narrativa do protagonista, permeada por atos violentos e consequências graves, precisava caber na boca de uma turma inteira, com suas questões e características particulares. Como aproximar dois universos distantes geograficamente, mas semelhantes na idade, nos conflitos e nas relações? Como trazer a história de Thiago, um estudante escocês, para a realidade da nossa escola, nossa sociedade, nosso tempo? A resposta veio dos próprios alunos. Ninguém melhor do que eles para captar os acontecimentos contemporâneos, processá-los e transformá-los em recurso estético, em tema de discussão. Assim, eles construíram a ponte entre a realidade que observam e a ficção que estavam trabalhando. As músicas que aprenderam nas passeatas de junho viraram parte do espetáculo, as gírias que pareciam mais adequadas para o nosso contexto foram selecionadas. E o público assistiu a uma peça que buscava dialogar com o tempo em que foi montada.

Repetir, repetir e repetir. Estrutura desenhada, era a hora de colocá-la em funcionamento, aprimorá-la através da eterna repetição que faz o cotidiano do trabalho teatral. E, a cada repetição, uma descoberta. Um problema surge e, com ele, a necessidade de solucioná-lo organizando-se como um coletivo, assumindo a responsabilidade de colocar um projeto em prática e vivenciá-lo com dedicação. Ensaios de domingo, falas sem decorar, faltas, atrasos. A estrutura começa a enguiçar e a pedir reparos. É aí que surge o espírito de grupo. A liderança que se articula e passa a motivar o resto da turma, lembrando sempre qual é o objetivo disso tudo: por que fazemos teatro?

Porque fazemos teatro? Por que ele auxilia a capacidade de comunicação do aluno? Pode ser. Por que o teatro amplia o potencial criativo, estimula novas habilidades, desenvolve o aspecto lúdico do adolescente? Também. Por que o teatro traz o contato com referências culturais que enriquecem a bagagem intelectual? Sem dúvida. Por todos esses aspectos, mas, principalmente, por nenhum deles. Porque o teatro, como todas as artes, é inútil, por definição. E sua função está justamente no espaço que se abre com a certeza de sua inutilidade. Nessa lacuna que rompe o cotidiano cheio de obrigações e certezas, surge lugar para o erro. O descompromisso do jogo cênico, a brincadeira criativa, possibilita e ensina uma forma de se relacionar com a sociedade, analisando-a e interferindo em sua dinâmica através da ótica do constante experimentar, sem a obrigatoriedade de concluir ou acertar.

Agora, imagina isso: uma turma de alunos que apostou no encontro com o público. Que enfrentou o risco da exposição e se permitiu errar. Que se divertiu, se emocionou. Que refletiu e fez refletir quase duzentas pessoas, reunidas em uma única noite. Dispostas a participar de algo vivo, pulsante. Uma experiência cheia de falhas, imperfeições que só autenticam seu valor.

Agora, imagina isso: uma turma repleta de diferenças que acabaram se somando. Um grupo que começou a amadurecer junto. Um texto com conflitos atuais. Tudo isso em uma apresentação, na quadra da escola. A noite já pela metade. Imagina. A ansiedade de mostrar o trabalho e a dedicação de todo um semestre. A realização, ao ver esse trabalho quase concluído. Imagina que eles já estão nas últimas falas. Falta pouco para a peça acabar. O público confinado, circundado pelos alunos/atores que o têm sobre controle, conduzindo-o através da história que escolheram contar.

Agora imagina isso: é a minha deixa. Estamos no final da apresentação. Eu corro até a caixa de luz. Desligo as chaves de energia. A luz se apaga.

Blecaute.

De longe, posso ouvir os aplausos.

Por último, imagine isso: para quem perdeu as primeiras apresentações de Blecaute ou quer rever essa história, aqui vai mais uma oportunidade. O grupo de teatro da Vila foi selecionado para o Festival Fundação das Artes de Teatro Estudantil e se apresentará no dia 03/10/14, às 15h, no Teatro Santos Dumont (Avenida Goiás, 1.111, Santa Paula – São Caetano do Sul). Esperamos vocês lá.

Luíza Zaidan, Graduada em Artes Cênicas pela UNICAMP, participou como atriz em peças como Quase Muda e A Hora em que não sabíamos nada uns dos outros. É professora do curso de extensão curricular de teatro do F2 e assistente no grupo de teatro do Ensino Médio.

Ensino Médio leva Jean Tardieu para São Caetano

Por  Rafael Ihara – aluno do 3º ano do Ensino Médio

Quando surgiu a proposta da apresentação de teatro em São Caetano do Sul, fiquei animado. Era a oportunidade de nos apresentarmos para um público diferente – de outra cidade, inclusive. Entretanto, o Tuna, nosso diretor, nos disse que, para participar desse festival, era necessário passar por um processo de seleção. Felizmente, passamos; mais que isso: fomos escolhidos para abrir o festival, no dia primeiro de outubro.

O tempo foi passando, os ensaios foram saindo, e a apreensão foi tomando conta de todos os atores. Cada um da sua maneira expressou preocupação. Afinal, não poderíamos contar com a presença de dois integrantes do grupo, que estariam viajando no dia da apresentação. Como se não bastasse, por um imprevisto no dia anterior, um terceiro ator não pode participar da peça – e ele teve que ser substituído às pressas. Resultado: deixamos de apresentar um pequeno trecho de “Uma peça por outra”, de Jean Tardieu. Acredito que devido à apreensão, ao nervosismo e aos improvisos que se fizeram necessários com as ausências, os ensaios finais não foram dos melhores – assim como a apresentação.

A plateia estava vazia – mais da metade dos lugares estavam vagos. Porém, mais satisfatório do que o convite para participar do festival, mais gostoso do que o lanche que comemos nos camarins antes da apresentação, foi ouvir, ao desenrolar de cada cena, a inconfundível risada dos alunos da Escola da Vila, que se dispuseram a ir até São Caetano só para nos prestigiar. Isso foi, com toda certeza, o mais prazeroso. Nos fez crer que depois de uma viagem extremamente cansativa nos dias anteriores, de um dia cheio de ensaios, adaptações, stress e angústia, todo o trabalho do grupo de teatro estava sendo revertido em entretenimento, diversão para aquele público tão fiel. Sem falar naqueles que foram para São Caetano mais cedo, junto com o grupo de teatro, nos fornecer apoio incondicional, ajuda sem medir esforços. À Dora Leroy, à Gabriela Sakata, à Giulia Matteo e ao Pedro Teixeira, nosso sincero agradecimento.

Os aplausos da plateia foram calorosos, assim como a parabenização de nossos colegas ao fim da apresentação. Os organizadores do festival sempre fizeram questão de enfatizar que esse evento não pretendia fomentar a competição, apesar das premiações e dos comentários dos críticos de teatro presentes.

Confesso que fiquei um tanto quanto ressentido com o comentário de uma mulher que não mediu esforços para nos criticar. Em sua fala, deixou claro que não compreendeu absolutamente nada de nossa apresentação – o que a impulsionou a colocar vários defeitos em elementos apresentados na peça e que foram detalhadamente trabalhados conosco pelo nosso diretor, Tuna Serzedello (a quem também devemos infinitos agradecimentos).

Depois dessa minha má impressão de alguns dos críticos de São Caetano, organizadores do festival, o abraço sincero e singelo daqueles que entenderam a peça e nos parabenizaram me animou (e tirou metade de todo o cansaço que aquele dia me proporcionou).

Faço um agradecimento mais que merecido ao Setor Cultural da Escola da Vila, pois Luísa Furman e Vicente Régis fizeram o impossível tornar-se possível (como quando fizeram caber o enorme banco e a gigante mesa no pequeno ônibus que transportou os alunos). Obrigado aos dois por acompanhar todo o processo de preparação para a apresentação e por terem se colocado à disposição para o que precisávamos.

Apesar de não ter sido a melhor apresentação do grupo de teatro da Escola da Vila, foi muito prazeroso levar um pouco de diversão àqueles que assistiram nossa encenação de Jean Tardieu em São Caetano do Sul naquela segunda-feira à noite.

Assista aos melhores momentos de Uma peça por outra.

O Teatro no Período Complementar.


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Por Camila Urbano

O teatro trabalha várias facetas do homem. A história do teatro na sociedade sempre teve o papel de explicar e compreender as questões humanas. Quando trabalhamos com as histórias podemos trabalhar qualquer questão da turma, e quando os alunos fazem os personagens, eles entram em contato com pensamentos e reflexões sobre o real. Através do lúdico podemos falar sobre alguns assuntos quase insuportáveis para uma criança, como a morte, o ciúmes do irmão mais novo e até mesmo o medo de crescer. Outro ponto que faz o teatro ser único é o trabalho em grupo, por que o teatro pede que todos juntos contem uma única história, senão é impossível compreender o que está sendo feito.  Por isso dizemos que não existem pequenos papeis, e sim pequenos atores, pois todos têm a mesma importância em cima do palco.

Sou atriz, formada no Teatro Escola Célia Helena e em Artes do Corpo pela PUC. Atuei em diversos espetáculos, entre eles “Querô, uma reportagem maldita”, de Plínio Marcos, e “Fio das Missangas” de Mia Couto. O meu interesse em dar aula me motivou a fazer ano passado o curso de extensão da Faculdade Célia Helena, voltada para esse ofício.

E este ano vim ministrar o curso de teatro no período complementar: uma experiência instigante e desafiadora. Como o teatro trabalha o coletivo, quando estamos com uma turma com idades muito diferentes trabalhamos as diferentes posições que ocupam e diversos sentimentos presentes nas  interações, como a generosidade dos mais velhos, pois eles devem usar suas capacidades para ajudar os mais novos, por exemplo.

Por outro lado, os mais novos ainda não têm a clara diferença do que é real e do que é fantasia, portanto eles entram na história de uma maneira profunda, o que torna a aula ainda mais rica. O resultado deste trabalho é uma turma unida, com uma capacidade maior de se expressar e transformar, participando de atividades que promovem a sensibilidade em relação ao outro e ao mundo.

Por que teatro na Escola?

Por Tuna Serzedello

 “O ser humano é teatro. Na natureza somos o único ser que é ator e espectador dos seus próprios atos. Todos podem fazer teatro, até os atores profissionais!” ¹

A arte de organizar cores e formas no espaço: artes plásticas.

A arte de organizar os silêncios no tempo: a música.

A arte de organizar ações físicas no tempo e no espaço: o teatro.

A importância do teatro na educação dos nossos adolescentes aparece já na sua própria definição.

O ator é aquele que age.

O adolescente precisa aprender a ser autônomo. Ensaiar para assumir o papel de protagonista da sua própria vida.

O teatro ajuda o jovem a entender esse papel.

O curso de teatro não tem como meta formar atores, mas formar cidadãos conscientes de sua história e que possam desenvolver no palco da vida papéis transformadores e importantes para sociedade como ele já fez no teatro.

O teatro na escola tem também a função de dar um novo significado esse espaço de aprendizagem. Na Escola da Vila, já transformamos em palco salas de aula, jardins, páteos, a antiga biblioteca e até o banheiro masculino! Estamos agora nos preparando para transformar as rampas de acesso ao refeitório em palco.

O teatro na escola, também tem a função de estudar o ser humano a partir das suas relações humanas, retratadas na dramaturgia, aqui já passamos por autores clássicos, contemporâneos e experimentamos escrever um texto coletivamente. Agora, estamos mergulhados no estudo da clássica “peça escocesa” de Shakespeare: Macbeth.

Trabalhar com os alunos e esta peça tem sido uma grande realização. Passar algumas tardes reunidos com eles, descobrindo significados escondidos no texto – “o poder legitimado pela violência” a “ilusão de segurança do poder” o “destino dos homens”- tem sido transformador. Sem contar a diversão das lutas cênicas e dos exercícios de coro.

Quando me pediram para escrever um texto sobre “por que teatro na escola?” todos os meus alunos me vieram à cabeça. Teatro não se ensina, se aprende. E para aprender precisamos de convivência, resolução de conflitos; pesquisa por conteúdos; paixão pelo que se estuda; vontade de descobrir; perseverança em perseguir o melhor, transformação do ser humano e, é claro, diversão. Será que esses não podem ser atributos para se definir o que é uma escola?

O teatro é o catalisador de todo o conhecimento humano. No palco reunimos conhecimentos das áreas de física, química, matemática, (não é à toa que os trabalhos de pesquisa dos atores são chamados de laboratórios!), línguas, filosofia, geografia, história e artes. Os alunos que fazem teatro tem a oportunidade de organizar melhor esse conhecimento e ampliar o seu aproveitamento acadêmico.

Sem contar a descoberta valiosa do poder das individualidades frente ao coletivo e a força dessas individualidades somadas em um grupo.

“Quando somos capazes de dizer nós, descobrimos o nosso verdadeiro eu…” ²

Podem dizer que estou superestimando o papel do teatro na escola, mas ainda acredito na educação como força propulsora das transformações da sociedade e, principalmente na escola como guardiã desse poder.

“O teatro é uma forma de conhecimento e deve ser também um meio de transformar a sociedade. Pode nos ajudar a construir o futuro, em vez de mansamente esperarmos por ele.” ³

Eu comecei a fazer teatro na escola, com 15 anos, muito do que eu acredito e pratico hoje, devo à escola, que permitiu a descoberta do meu futuro, em um passado que hoje, já é um pouco distante. Essa descoberta feita na minha adolescência, é reafirmada a cada encontro com esses meus alunos de hoje, que alimentam o eterno ciclo do teatro. O eterno ciclo da vida.

“A vida é apenas uma sombra ambulante, um pobre cômico que se empavona e agita por uma hora no palco, sem que seja, após, ouvido; é uma história contada por idiotas, cheia de som e fúria, significando nada.”

Fontes:

¹ Augusto Boal – em todos os seus livros você encontra essa citação!

² “Conjuntos analógicos e conjuntos complementares – Uma teoria para o teatro subjuntivo”, parte integrante do livro “O Teatro como Arte Marcial” de Augusto Boal. (Rio de Janeiro/2003/Ed. Garamond)

³ “Jogos para atores e não atores”, Augusto Boal (Rio de Janeiro/2007/Ed Civilização Brasileira)

Macbeth, de William Shakespere –tradução Jean Kablin Segall

É uma coisa maravilhosa.

Por Tuna Serzedello


O Teatro é uma poderosa ferramenta de transformação social. Toda transformação de uma sociedade começa pelos seus indivíduos. Certo ator me contou que começou a fazer teatro pois acreditava na mudança do mundo através dos palcos: – Mudou? – perguntei eu. – Não sei, mas eu mudei. – respondeu ele.

Acredito no teatro como ferramenta de mudança. Acredito ainda mais no teatro com jovens em formação, pois eles são a personificação da mudança.

Na sua busca por sua identidade, deixam pelo caminho muita paixão e talento.

Tenho muito orgulho dos alunos do grupo de teatro da Escola da Vila.

O propósito do nosso grupo não é pequeno, queremos dar conta de estudar História do Teatro, Teorias de Interpretação, Dramaturgia e ainda encenar o processo da nossa pesquisa.

As portas estão sempre abertas, curiosos e admiradores são bem-vindos.

O espaço deve ser democrático e plural, afinal o teatro é baseado em diálogos, e devemos estar preparados para desempenhar bem nosso papel, no palco e na vida.

Em junho do ano passado foi lançado o desafio: estudar o teatro realista.

Estreamos o novo prédio da Unidade Morumbi batizando nossa sala de “Estúdio da Vila”, e seguimos passo a passo os ensinamentos do russo Constatin Stanislavski, acompanhados por Ibsen, Tchécov, Tenesse Williams e Arthur Miller. O resultado foi apresentado em um ensaio aberto no próprio espaço, no Festival de Poesia de 2010 e recentemente na IV Mostra de Teatro do Colégio Santa Cruz. “Deve Ser uma coisa Maravilhosa” reuniu cenas dos principais autores realistas e uma do Bertolt Brecht para contraponto. Não quero discutir a qualidade artística desse trabalho, mas exaltar o que eu aprendi com esse grupo de alunos. Vi um grupo que acolheu novos integrantes e que não abriu mão dos antigos, hoje ex-alunos, na sua composição. Aprendi que maturidade, confiança e responsabilidade são atributos para serem vivenciados e não ensinados. Testemunhei superação e perseverança. E por fim confirmei a minha crença: os adolescentes são capazes de produzir cultura. E quando desafiados produzem acima do esperado. Foi uma coisa maravilhosa, e continua sendo, conviver com esses alunos.